domingo, 19 de janeiro de 2014




Tive medo


Cissa de Oliveira



Temi perder o trem, a hora, o último pão - a poesia -, 

a crença. Tive medo que se apagassem em mim

as paisagens leves da infância. 


Temi envelhecer nos versos, dar dois passos e cair

feio, fraturar a serenidade, a boa fé, a beleza de amar.

Temi a força da ventania no rodado da saia,

medo de achar natural a maldade. Medo do medo,

tive medo de saber distâncias entre a minha e a tua alma.


Não, temi mesmo é que aquele anjo quebrasse uma asa;

pior, fosse eu o anjo e, asa quebrada,

desconhecesse o voo até as estrelas que brilham

sob o céu da tua boca.


Tive medo por tudo isso, 

de jamais escrever-te este poema de amor.




Cissa de Oliveira

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