segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Espanto






 O amor é uma doença,
dizem.
Esqueçam-me aqui
mergulhada em maré viva,
 espanto, enamoramento.

Entre o chá da tarde e a aguardente
escolho a bebida quente do sorriso, 
e a pimenta vermelha da saudade
coroada de uma penca de certezas.

Pra lá o chá,
pra cá a poesia de entrelaçar
os dedos noutros dedos,
 ai o amor, doença ao contrário, 
livramento 
da morte em vida.

Um viva à bebida quente,
um viva a pimenteira,
e se o santo não falhar,
um viva bem vivo
à  macumba daquele olhar.


Cissa de Oliveira

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Lua de Sangue




Lua cor de coração.
Lua de sangue, assim, meio canção,
asa de anjo, feito a tua aparição.

Será amor, homem?
Só sei me faz sonhar
Seguir trilhas da luz
no teu olhar,
voar.

Lua orgânica,
lua tão já...
que a minha face descansa
nalgum canto
da curva do teu ombro.

Ela se impõe, ela se impõe, sim,
lá vem  tecendo um laço, um nó,
o inevitável abraço entre nós.

Será prosa, poema, imaginação?
simples, simples, assim
Lua de sangue, viagem
contramão,
nas asas de um querubim. 

Cissa de Oliveira
30.07.18


domingo, 11 de setembro de 2016




Uma tarde mais do que especial na Terceira Feira do Livro Campinas Shopping, 27 de agosto/2016. Autógrafos em parceria com a escritora Mora Alves. Muitos amigos e muita alegria. Gratidão.














sábado, 21 de março de 2015

Linguagem e democracia

Cissa de Oliveira


O conhecimento se renova com muita velocidade. Há tempos ouvimos e sabemos tanto sobre isto que até nem causa mais estranhamento saber que a tecnologia que conhecemos recentemente já está ultrapassada.   

E se o conhecimento, praticado ou não, se duplica, triplica e replica numa velocidade estrondosa, por que haveria de ser diferente com as coisas da palavra? A sentida e a falada, escrita. A culta e a inculta. A rica e pobre. A certa e a errada. Errada? Até quando? Palavra é coisa viva, vai por aí, encontrando, preenchendo nichos, se estabelecendo. Ninguém manda na palavra, não, nem nos seus arranjos.

Não faz tanto tempo, a febre era a do “vou estar” alguma coisa: providenciando, verificando, olhando, averiguando, falando e até mesmo – espanto -  escrevendo ou apagando. A onda do gerúndio era um tanto cômica mas o fato é que ocupou frases cotidianas, discursos, promessas. Ações sem prazo para começar e, dependendo do caso, muito menos para terminar. Desdobramento sobre desdobramento? Ações desdobráveis, tanto quanto as linhas das costureiras, aquelas que, atualmente trabalham na costurateria...? Claro, pois se às manicures e clientes surgiram as esmalterias, se os pães nascem nas paneterias e se daqui a pouco os bebês nascerão nas bebeterias por que as costureiras não haveriam de ter vínculo com a costurateria?

E a escola, será que a ela vai ser chamada de escolateria? “... as escolaterias da diretoria sul são responsáveis por 39% da aluneteria (justo que o aluno seja tratado também enquanto classe) da Secretaria da Educateria de São Paulo...”.

Será que o vô dicionário vai suportar tanta fluidez? Pensar que a gente nem viajou além da zona de conforto do próprio linguajar! Já imaginou a palavra farofateria?   

Eu curto a democracia da palavra. Fluidez de bem prá lá do certo e do errado. Licença poética.  Talvez devesse adotá-la, pacote inteiro e definitivo no mundo da crônica.  Começarei abrindo uma pasta aqui, sob o nome croniqueteria. É feio? Mas com esse ar de indústria da escrita a fluidez bem pode rolar por aqui.  Além do mais “democrateria” ou democracia, como queiram: tudo coisa séria.

Cissa de Oliveira



domingo, 26 de outubro de 2014

Aviso






Achou-se um pensamento perdido,
rendido, rendado,
no rodado do vestido.

Achado não é roubado.

Com ele se desenharam versos d'água,
que somente serão entregues
ao verdadeiro dono.

Cissa de Oliveira


sábado, 27 de setembro de 2014

Faleceu ontem a pessoa que atrapalhava sua vida


Luis Fernando Veríssimo

Um dia, quando os funcionários chegaram para trabalhar, encontraram na portaria um cartaz enorme, no qual estava escrito:
"Faleceu ontem a pessoa que atrapalhava sua vida na Empresa. Você está convidado para o velório na quadra de esportes".
No início, todos se entristeceram com a morte de alguém, mas depois de algum tempo, ficaram curiosos para saber quem estava atrapalhando sua vida e bloqueando seu crescimento na empresa. A agitação na quadra de esportes era tão grande, que foi preciso chamar os seguranças para organizar a fila do velório. Conforme as pessoas iam se aproximando do caixão, a excitação aumentava:
- Quem será que estava atrapalhando o meu progresso ?
- Ainda bem que esse infeliz morreu !
Um a um, os funcionários, agitados, se aproximavam do caixão, olhavam pelo visor do caixão a fim de reconhecer o defunto, engoliam em seco e saiam de cabeça abaixada, sem nada falar uns com os outros. Ficavam no mais absoluto silêncio, como se tivessem sido atingidos no fundo da alma e dirigiam-se para suas salas. Todos, muito curiosos mantinham-se na fila até chegar a sua vez de verificar quem estava no caixão e que tinha atrapalhado tanto a cada um deles.
A pergunta ecoava na mente de todos: "Quem está nesse caixão"?
No visor do caixão havia um espelho e cada um via a si mesmo... Só existe uma pessoa capaz de limitar seu crescimento: VOCÊ MESMO! Você é a única pessoa que pode fazer a revolução de sua vida. Você é a única pessoa que pode prejudicar a sua vida. Você é a única pessoa que pode ajudar a si mesmo. "SUA VIDA NÃO MUDA QUANDO SEU CHEFE MUDA, QUANDO SUA EMPRESA MUDA, QUANDO SEUS PAIS MUDAM, QUANDO SEU(SUA) NAMORADO(A) MUDA. SUA VIDA MUDA... QUANDO VOCÊ MUDA! VOCÊ É O ÚNICO RESPONSÁVEL POR ELA."
O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos e seus atos. A maneira como você encara a vida é que faz toda diferença. A vida muda, quando "você muda".


Luis Fernando Veríssimo

domingo, 27 de julho de 2014

Uma carta uma brasa através
















uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais

Paulo Leminski

Passageiro








Por que danço?


Para ser passageiro de meu próprio corpo.


Para me esquecer. Para lembrar.


Para lhe ter.


Danço para, por instantes, ser real.

Bruno Franchi

segunda-feira, 10 de março de 2014



Espera 

Eugênio de Andrade


Horas, horas sem fim,

pesadas, fundas,


esperarei por ti


até que todas as coisas sejam mudas.



Até que uma pedra irrompa


e floresça.

Até que um pássaro me saia da garganta


e no silêncio desapareça.



Eugênio de Andrade


Arte by Amy Lind.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Meu caro Watson


O frio dói. Até a pele, algo ressecada, pálida e desassossegada já sinaliza isso. A lâmina de vento frio corta até a alma. 

Definitivamente, meu caro, no frio eu não sou eu. Vamos, páre de esfregar as mãos, e por favor me traga o cachecol ali, esse mesmo, colorido de sol. Você sabe como no frio eu posso ir do tédio à tristeza, e desta à desolação ou à raiva. Então não fique aí parado, homem, ainda mais quando o que eu queria, mesmo, era correr de alegria... não fosse a roupa pesada também atrapalhar, e a garoinha sem saber se fica ou vai.

Até hoje eu não entendi o porque das pessoas voltarem em tantos invernos a Campos do Jordão. Ter que dormir assim, com o aquecedor ligado não é pra mim. Bom mesmo é vinho quente, queijo e companhia apropriada, e mais eu não digo. Sob a pouca luz da estação, aproveite pra eliminar os outros fatores e fique só com a verdade, meu caro “Watson”, antes que eu não páre de achar a alegria implícita ao verão, à cor da primavera e à poesia do outono.



Cissa de Oliveira

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014



Por aí

Verônica Lane



Tec tec tec
são os saltos dos sapatos,
as teclas, o teclado.
Eu vou por aí, meu bonitinho,
fecho a porta da sala,
abro o caderno, o colorido
e o monocromático.
Atravesso o Rio Nilo,
o Rio Sena e o de Piracicaba.
Que importa o tempo, o rio, o espaço,
se eu rio mesmo é na alegria
de saber que você é,
em algum lugar?
E é tão grande essa alegria,
bonitinho,
garça branca num balé
espelhado,
e tão segura,
por saber que você é, por aí,
em algum lugar.


Verônica Lane