segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Um texto de Rubem Alves





A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. É no vazio da jarra que se colocam flores.
E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas! Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade.

Rubem Alves

terça-feira, 21 de janeiro de 2014




Seja 


Seja o que flor, meu amor,

é amor,

então, seja o que flor,

seja como flor. 



Cissa de Oliveira


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014




"... se levares carinho e ternura,
a culpa bem pode ser de Neruda
ou somente tua..."

Cissa de Oliveira

domingo, 19 de janeiro de 2014



Demais




Constelações e constelações, 
bem depois de Armageddon, 
bem pra lá de Agamemnon, 
bem debaixo do nosso lençol. 
O resto é concreto.

Cissa de Oliveira




Tive medo


Cissa de Oliveira



Temi perder o trem, a hora, o último pão - a poesia -, 

a crença. Tive medo que se apagassem em mim

as paisagens leves da infância. 


Temi envelhecer nos versos, dar dois passos e cair

feio, fraturar a serenidade, a boa fé, a beleza de amar.

Temi a força da ventania no rodado da saia,

medo de achar natural a maldade. Medo do medo,

tive medo de saber distâncias entre a minha e a tua alma.


Não, temi mesmo é que aquele anjo quebrasse uma asa;

pior, fosse eu o anjo e, asa quebrada,

desconhecesse o voo até as estrelas que brilham

sob o céu da tua boca.


Tive medo por tudo isso, 

de jamais escrever-te este poema de amor.




Cissa de Oliveira

Verão 2014