segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Mais pão, menos canhão
Sei lá porque me deu vontade de escrever sobre isso agora. No auge da ditadura militar eu era ainda uma menina recém saída de um colégio de freiras; sabia nada de nada.
Cissa de Oliveira
"Mais pão, menos canhão" nada mais é do que a reprodução de uma das muitas pichações produzidas por integrantes de movimentos estudantis na época da ditadura.
Mais de vinte anos após o fim do regime militar, continuam as polêmicas com relação ao tema. Deve-se abrir os arquivos da época? Os torturadores da época devem ser punidos? Qual seria a reparação às vítimas? As vítimas e ou seus familiares devem ser indenizadas? O fato é que as opiniões são distintas com relação à responsabilidade do Estado, seus agentes e crimes, além da legitimidade das investigações.
A ditadura militar se encerrou efetivamente com a posse de José Sarney na presidência, em 1985, porque até então andava-se às voltas com problemas criados naquela fase da História. Mas qual é a origem desses problemas? Após o golpe que implantou a ditadura em 1964, parte da “esquerda” usou a luta armada contra o regime. Contra essa luta houve ação repressiva oficial, que também ia contra os movimentos sindical, estudantil e popular, com prisões arbitrárias, torturas e morte de pessoas capturadas por integrantes do Estado.
Em 1979, período final do regime, uma lei intitulada Lei da Anistia, retirou as acusações contra os militantes da esquerda. Mas a Lei da Anistia não fazia referências aos agentes do Estado que torturaram e mataram pessoas em seu poder. E em 1979, os militares lá reconheciam como crimes o ocorrido nos cárceres do regime? Por isso essas questões importantes permanecem em aberto, reaparecendo a polêmica de tempos em tempos.
Parentes de vítimas ainda tentam uma reparação. Qualquer um no lugar deles faria isso! Os governos de até então não resolveram o problema, e enquanto os arquivos da ditadura não forem abertos será impossível apurar com exatidão muito do que aconteceu nos idos da ditadura.
Movimentos por direitos humanos sempre exigiram a investigação dos crimes, assim como a punição dos torturadores e assassinos integrantes do regime militar. A argumentação é a de que havia “uma guerra” e que a anistia devia valer para todos.
O assombro é que vários acusados continuam em cargos públicos. Por outro lado, mesmo sem julgamentos o Estado assumiu a responsabilidade, e como forma de reparação, indenizou prejudicados pelo regime militar (cerca de pelo regime militar. É pouco! Além disso, essa medida também causou polêmicas, pois muitos entendem que ela beneficiou pessoas que teriam cometido violências e ilegalidades na época, mas outros acham que isso não passa de medida paliativa que apenas dribla a democracia por não exigir investigações e punições a criminosos (militares da época), além de não afastá-los de instituições do Estado.
... aos inocentes, as flores...
Cissa de Oliveira
sábado, 29 de outubro de 2011
Não me sinto acadêmico, sempre fui marginal
Entrevista com Nilto Maciel
Cissa de Oliveira: Nilto, consta na sua bibliografia que o seu primeiro livro foi publicado em 1974. Você se descobriu escritor por volta dessa época ou já escrevia muito antes de 1974?
Nilto Maciel: Leio desde menino e desde adolescente passei a imitar os escritores. Claro que nada daqueles escritos valia alguma coisa. Na verdade, o que sobrou (joguei quase tudo no lixo) foi um conjunto de 14 contos curtos que publiquei em 74 sob o título "Itinerário", depois reescrito e republicado.
Cissa de Oliveira: Qual é, na sua opinião, o papel do escritor na evolução da linguagem?
Nilto Maciel: Cissa, está nos livros: tudo existe por necessidade. Nada se cria para ser inutilidade. Mesmo aquilo que alguns (ou a maioria) abominam. Vejamos as drogas orgânicas: como viver sem elas? No mundo todo, o álcool é usado diariamente. A linguagem também se cria ou se recria continuamente, por necessidade de comunicação.
Cissa de Oliveira: Dizem que a mesma droga pode ser veneno ou remédio, dependendo da dose. Quanto à “química literária”, a sua, por exemplo, que é viciadora (gostou do palavreado?) – é sim... - é passível de ser aprendida ou somente apreendida? Será que os novos escritores aprendem a escrever, e isto seria algo mais relacionado com a prática e a leitura ou o talento é o que conta?
Nilto Maciel: Aprendemos sempre, se quisermos. Para apreender, no entanto, é preciso mais do que vontade. Existe uma faculdade do escritor no Rio Grande do Sul. Não sei como funciona. Acredito que todo bom aluno (aplicado, como se dizia) pode aprender a escrever bem. Claro que a escola (os professores) contará com a prática da escrita e a leitura. Sem isso, impossível escrever. Não sei se sem talento (ou dom, seja lá qual for o nome) seja possível alguém se tornar um bom escritor. Acho que não. Muita imaginação, curiosidade, ousadia, tudo isso é necessário. Essencial, direi.
Cissa de Oliveira: A cidade de Palma. Quando você criou um carnaval por lá (Carnavalha) foi para dizer algo que teria deixado de expressar em “Os Varões de Palma”? O que há de especial com esta cidade?
Nilto Maciel: Nem sei como surgiu a idéia do romance. Creio que tenha bebido um bocado de cerveja, nos dias de carnaval de 1997 ou logo após. Fiz um balanço: escrevi um romance que remonta aos tempos coloniais (Os Guerreiros de Monte-mor), outros que relembram os primeiros anos do século XX, um que conta 1964 em Palma. Faltava um romance de hoje. Palma seria a Baturité de minha infância e de antes dela. Tudo imaginado, é claro, porque não faço pesquisas para escrever. Minto: faço pesquisas, sim, leio muito, li muito sobre índios, História do Brasil, do Ceará, de Baturité, folclore, estudos sociológicos, etc.
Cissa de Oliveira: Ainda sobre Carnavalha: O Carnaval foi escolhido como tema por ser um pano de fundo ideal, onde pessoas e fatos se transmutam com mais naturalidade, permissividade, tolerância?
Nilto Maciel: Não, não pensei nisso. Como disse na resposta anterior, a cerveja me fez pensar num romance em pleno carnaval.
Cissa de Oliveira: “A cerveja me fez pensar num romance em pleno carnaval”. Pois bem, eu soube de escritores que se acostumaram a escrever poemas somente a partir de citações de outros poetas; e há aqueles que só escrevem se for com o uso do computador, e outros que o fazem até durante o transporte diário. Qual é a sua metodologia para escrever? Há algum pré-requisito? A inspiração é essencial ou você começa e depois deixa que a coisa vá acontecendo?
Nilto Maciel: Meus primeiros escritos saíram em folhas de papel ou cadernos. Só recentemente passei a escrever diretamente na tela do computador. Coisa de dez anos. A idéia surge a qualquer hora e em qualquer lugar: vendo televisão, ouvindo música, dirigindo carro, trabalhando, etc. Então anoto a idéia e passo a desenvolvê-la em pensamento. Não deixo "a coisa acontecer ou ir acontecendo". Fico ruminando por horas e dias aquela idéia. E vou anotando tudo. Às vezes nem consigo dormir direito, a noite toda "pensando" naquilo. Chego a escrever, a elaborar o conto durante o sono. Decoro as frases, refaço-as mentalmente. No outro dia tenho tudo decorado e copio. Só então (pronto o conto) passo à fase de lapidação: cortes, acréscimos, troca de vocábulos, nomes de personagens, etc.
Cissa de Oliveira: E já que falamos em computador, você acha que o livro impresso ainda será substituído pelos livros eletrônicos? Dentre os seus livros impressos, quantas e quais obras já estão editadas digitalmente?
Nilto Maciel: Sim, um dia os livros de papel serão substituídos pelos livros eletrônicos. Já existe isso em escolas. Nos tribunais os autos estão desaparecendo. Tudo no computador. Todos os meus livros estão em disquetes, cds, sites e blogs.
Cissa de Oliveira: Então, diante da eminência do fim do livro impresso, não seria lógico que as editoras abrissem mais espaço e condições para a publicação de novos autores, sob o risco de desaparecerem?
Nilto Maciel: Não sei o que pensam os editores sobre isto. Certamente pensam em ganhar muito dinheiro, antes do fim da era do livro impresso. Porque depois pensarão em ganhar dinheiro noutros quintais.
Cissa de Oliveira: Eu notei que você é um autor que tem sido bem estudado e imagino que isto traga bastante satisfação. Dentre esses estudos existe algum que tenha um significado especial pra você?
Nilto Maciel: É verdade, muitos têm escrito artigos sobre minha obra. Alguns são amigos e, portanto, o fizeram por amizade. Outros são apenas conhecidos. E há ainda os que nunca vi ou com eles conversei. Todos os artigos são agradáveis. Mas posso mencionar dois como importantes para mim: o prefácio de José Lemos Monteiro para o romance A Guerra da Donzela e um estudo de F. S. Nascimento (F.S. Nascimento reuniu os três estudos num só e publicou em livro, “Apologia de Augusto dos Anjos e outros estudos” – Universidade Federal
do Ceará/Casa de José de Alencar, Fortaleza, Ceará, 1990).
Cissa de Oliveira: O que você fez em termos de política e em que períodos? O que escreveu neste meio tempo?
Nilto Maciel: Fiz-me socialista aos 15 anos de idade, mais ou menos. Depois de ter decorado a missa em latim e de lido todas as orações da Igreja Católica, passei a ler os hereges. Li muitos filósofos. E assim me fui tornando ateu ou seja lá o que for. Logo me fiz leitor dos semanários de esquerda: A Liga (de Francisco Julião, das Ligas Camponesas), A Classe Operária, Novos Rumos (PCB) e outros. Lia também revistas e livros de esquerda. Em 63/64 participei de um grupo de bairro (meus irmãos e uns amigos) chamado LACISA - Liga de Ação Contra a Injustiça Social e Administrativa, desfeita com o golpe. Retornei à luta em 67, no CESC - Centro dos Estudantes Secundaristas do Ceará - então sob o controle de um grupo chamado Quarta Internacional Trotskista ou Partido Operário Revolucionário Trotskista. Com a intensificação da repressão e o início da luta armada (guerrilha urbana e rural), voltei-me de novo para os estudos e a literatura.
Cissa de Oliveira: Poesia. Além de um livro de poemas, "Navegador", de 1996, e algumas participações em antologias deste gênero, você não tem publicações em poesia, apesar de ser um autor de vários livros de conto e romances. Como o autor Nilto Maciel enxerga a poesia que se produz hoje no Brasil?
Nilto Maciel: Li muita poesia. Os principais poetas. Hoje leio pouco. Não conheço os novos poetas. Há anos não escrevo poemas. Os bons poetas de hoje, para mim, são aqueles que li há trinta, vinte, dez anos, como Francisco Carvalho, Ferreira Gullar.
Cissa de Oliveira: O que você está escrevendo atualmente? Você escreve mais de um livro numa mesma época?
Nilto Maciel: De vez em quando escrevo um conto. Aqui e ali, um artigo, um prefácio, a pedido. Romance não pretendo mais escrever. Quando escrevia romances, dedicava meu tempo todo somente a eles. Os contos não são programados. Vão surgindo, vou anotando.
Cissa de Oliveira: Nilto, se você tivesse que escolher dentre as suas obras uma que melhor representasse todo o seu trajeto literário, qual delas seria?
Nilto Maciel: Talvez "A guerra da donzela".
Cissa de Oliveira: Você acredita que o hábito da leitura poderia ser afetado pela diversidade de atividades que se pode ter hoje em termos de diversão ou o público que gosta de leitura é diferenciado neste sentido?
Nilto Maciel: No passado (que não conhecemos), num tempo sem rádio, sem televisão, sem computador, sem cinema, quem gostava de arte lia e freqüentava teatro. Hoje, diante de tantas opções de diversão, as pessoas se afastam dos livros. Na verdade, os leitores são uma minoria. Sempre foram. Mas o leitor não troca livro por televisão.
Cissa de Oliveira: O ambiente onde se escreve tem muita influência sobre o que se escreve? Como é isto pra você?
Nilto Maciel: O ambiente influi muito no momento da criação literária. Prefiro escrever em silêncio, na solidão, com muitos livros por perto (dicionários, principalmente), com saúde, lúcido, tudo limpo e arrumado. Uma só pessoa no ambiente atrapalha. Insetos atrapalham. Ruídos atrapalham.
Cissa de Oliveira: Nilto, o seu artigo “A respeito da Revista O Saco” no Portal de Arte e Literatura Cronópios (http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3318), de 12.06.08, é um verdadeiro histórico que delineia as batalhas e também o sucesso desta antiga revista literária. Você, que foi um dos fundadores e fazia parte do conselho editorial, a que atribuiria o marcante sucesso da revista em tão pouco tempo (menos de um ano de edição)?
Nilto Maciel: Aquele momento - 1976 - se mostrava propício ao surgimento de novas propostas editoriais. Além disso, éramos muito ativos, combatentes, decididos, jovens. Porém, não fosse Manuel Coelho Raposo, a revista não teria surgido e existido.
Cissa de Oliveira: Por que a edição da Revista O Saco acabou, mesmo num momento de muito sucesso e prestígio literário, inclusive no exterior? Foi falta de alguma espécie de apoio? De que tipo?
Nilto Maciel: A revista acabou porque tudo acaba. Não, estou filosofando. Acabou porque houve pressão da distribuidora: ou aumentávamos a tiragem ou o contrato chegaria ao fim. Como não tínhamos muito dinheiro, não foi possível aumentar a tiragem. Por outro lado, Raposo deve ter se sentido cansado. Naquele tempo não queríamos apoio estatal (vivíamos sob a ditadura).
Cissa de Oliveira: Por que a revista recebeu este nome? Sempre cabia mais um (escritor) ou é porque ali, na medida em que ligados pela literatura, todos eram farinha do mesmo saco?
Nilto Maciel: Não, todos não eram farinha do mesmo saco. Publicávamos antigos e novos, cearenses e sulistas, moderninhos e tradicionalistas. O importante era o valor literário. O nome veio do formato: um envelope amarelo (tipo saco) como capa.
Cissa de Oliveira: Você edita deste 1991 a revista Literatura, portanto, há um bom espaço de tempo. Algum dos seus colegas escritores fundadores da antiga Revista O Saco trabalha com você neste novo (maneira de dizer) veículo literário?
Nilto Maciel: Na verdade, 17 anos. Todos os amigos que fiz desde o início dos anos 1970, de todo o Brasil, continuaram amigos e colaboradores. Alguns nunca cheguei a ver. Outros vi uma vez na vida. Mas nada disso impede a amizade. Literatura é uma revista feita por amigos. Citarei apenas alguns, por economia de espaço: Eneás Athanázio (de Santa Catarina), Francisco Miguel de Moura (do Piauí), Batista de Lima (do Ceará). São os mais antigos. Surgiram outros, é claro. E sempre surgirão, porque na família dos escritores há brigas, desavenças, invejas, ciúmes, mas todos se amam.
Cissa de Oliveira: Fale um pouco sobre a Revista Literatura. Tem alguma espécie de patrocínio para a edição, distribuição, etc, como acontecia com a revista O Saco? A periodicidade de publicação da mesma mudou desde o começo ou sempre foi semestral? Passado o tempo, quais foram e quais são as suas expectativas para esta revista?
Nilto Maciel: A grande diferença entre O Saco e Literatura está exatamente no patrocínio. Aquela contava com anúncios comerciais; esta vive da colaboração de seus fundadores, basicamente. Não tem anúncios, não recebe patrocínio oficial ou empresarial. A distribuição é dirigida a bibliotecas, entidades culturais, jornalistas da área cultural, escritores, etc. A periodicidade tem se mantido na semestralidade, com muito esforço de todos nós. Já pensei em dar fim à revista. Estou cansado. Muita chateação. Muita gente querendo publicar e poucos querendo ajudar.
Cissa de Oliveira: Revista O Saco, revista Literatura, Caos Portátil. A sensação que eu tenho é a de que no Ceará existe uma preocupação suficientemente forte para driblar as dificuldades e a inércia em termos de publicação, abrindo cada vez mais espaços para os autores. Existe mais algum periódico literário editado atualmente no Ceará além da Literatura e Caos Portátil?
Nilto Maciel: Batista de Lima escreveu um artigo sobre este assunto: é grande a tradição de periódicos literários no Ceará, desde o século XIX. Talvez a explicação esteja no abandono a que somos relegados pelas editoras do Sudeste. Entretanto, não somos apenas os cearenses estes esquecidos.
Cissa de Oliveira: Aí está uma resposta (literária) bastante construtiva, em perfeita consonância com os tempos da internet onde “fronteira” é palavra que não existe. Falando nisto, em quais principais endereços eletrônicos (sites, blogues, etc) se podem encontrar alguns dos seus escritos?
Nilto Maciel: É verdade, com a Internet acabaram-se as fronteiras. As pessoas nem querem saber onde você mora, se o vêem num site ou num blog. Tenho conhecido escritores de todo o Brasil (o que já acontecia, porque sempre fui um buscador de amizades e novidades). Meus poemas, contos, romances e artigos estão principalmente nos seguintes endereços (e noutros):
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/ http://niltomaciel.blog.uol.com.br http://contosbrasileiros.blogspot.com. http://www.cronopios.com.br/ http://www.secrel.com.br/jpoesia; http://www.verdestrigos.org/; http://www.bestiario.com.br/; http://www.germinaliteratura.com.br/ http://www.antoniomiranda.com.br/ www.revistavagalume.com. http://www.conexaomaringa.com. www.literaturafantastica.pro.br
Cissa de Oliveira: Por causa do trabalho você morou em Brasília por mais de vinte anos e depois voltou para o Ceará. Em Brasília não tinha disso não?
Nilto Maciel: Em Brasília tem também um pouco de Ceará, de Nordeste, como em São Paulo e Rio de Janeiro. Entretanto, lá eu me sentia em exílio. Muita saudade da gente, dos costumes, da cultura cearenses.
Cissa de Oliveira: O escritor Nilto Maciel se delineia nestas respostas, mas e o Nilto pessoa, o que me diz dele? Fale um pouco sobre a sua família, e da sua relação com eles.
Nilto Maciel: Tenho quatro filhas: Fernanda Carenina, Menita Flaviana, Nioche Valentina e Aretusa Luanda. Meus quatro amores. Meus pais já faleceram. Meus primeiros amores. Restam-me duas irmãs. Segundos amores. Falo com elas todo dia, por telefone, porque moram fora do Ceará, as filhas e uma irmã.
Cissa de Oliveira: É sabido que, paralelo à carreira profissional, surgiu e cresceu o escritor Nilto Maciel, exemplo que se vê entre vários escritores bem reconhecidos. Será que “viver de literatura” é tão prazeroso quanto exercê-la pelo simples fato de gostar de escrever?
Nilto Maciel: Não se vive de Literatura, no Brasil. A maioria dos escritores (creio que no mundo todo) escreve por prazer, por vaidade, por isso, por aquilo, e não porque ganha dinheiro com ela. Alguns de meus livros foram editados por editoras de porte médio, em edições pequenas. Ou por editoras oficiais (secretarias de cultura). O maior prazer está, no entanto, em escrever, criar. Sinto-me entediado quando não estou escrevendo. Quando a centelha surge, a alegria vem junta. Nesse momento tudo desaparece diante de mim. Entro em transe. Tudo o mais ao meu redor deixa de existir: até a música de Chopin. Se alguém me visitar nesse momento, certamente não será recebido com cortesia. Se alguém me telefonar, não atenderei o chamado. Passo o resto da noite a pensar e fazer anotações. Não consigo dormir direito. Sonho com o conto em processo de criação. Às vezes escrevo (mentalmente) dormindo. No outro dia tenho tudo decorado e é só copiar.
Cissa de Oliveira: E então Nilto, quais são as novidades em termos de lançamentos literários? Algum projeto em especial?
Nilto Maciel: Caríssima amiga Cissa, como só paramos quando morremos, eu também continuo escrevendo e publicando. Só espero não continuar escrevendo depois de morto. Mas quero continuar publicando, isto é, sendo publicado. Além da antologia “Capitu mandou flores” (Geração Editorial, SP) organizada por Rinaldo de Fernandes, deve ser publicado em breve o ensaio sobre o conto cearense. Pretendo publicar até outubro o n° 35 da revista Literatura. E no começo do ano vindouro mais uma coleção de contos: Urbi et orbi, contos curtos, escritos há alguns anos.
Cissa de Oliveira: O que significa “Urbi et orbi” (é relacionado à cidade?) Os contos seriam relacionados ao cotidiano citadino?
Nilto Maciel: "Urbi et orbi" é o título de um dos contos. São contos curtos, de personagens históricos, mas nem sempre urbanos. Como se sabe, a expressão latina e católica "urbi et orbi" quer dizer "À Urbe (= Roma) e ao mundo".
Cissa de Oliveira: Nilto, uma das coisas mais poéticas que eu li ultimamente não estava num poema, mas num comentário que você escreveu em “Livros do Brasil”*. Ali você escreve sobre a “rica indústria do livro no Brasil” e que ela atuaria em três principais frentes: 1) do livro didático; 2) do livro das grandes, médias e pequenas editoras; e 3) a do livro do autor ou micro-editora de autor. Com relação ao último tipo (3), eu pergunto: Na sua opinião, que coisa é esta que faz um escritor passar por cima de tantos obstáculos para publicar?
* (11.10.05 no seu blogue
http://niltomaciel.blog.uol.com.br/arch2005-10-09_2005-10-15.html).
Nilto Maciel: Como se sabe, as editoras só publicam estrangeiros (santo de casa não faz milagre) e alguns brasileiros. De preferência, jornalistas, cronistas de grandes jornais, "famosos" (como dizem por aí), porque são garantia de venda dos livros. Ou seja, o investimento do editor dá bom resultado. O resto (a literatura propriamente dita) fica de fora do mercado. Sendo assim, os escritores se vêem forçados a pagar as pequenas edições de seus livros. Vendem dez, vinte exemplares na noite de lançamento (para parentes e amigos) e o resto da tiragem vai para casa. Parece coisa de louco, de criança, de visionário, de poeta, não é? Alguns, depois de mortos, virarão celebridades no meio acadêmico (como o cearense Oliveira Paiva) e seus livros serão editados por grandes editoras, que não pagarão direitos autorais a ninguém (deviam pagar a um fundo de cultura).
Cissa de Oliveira: Ainda em “Livros do Brasil” você diz que os livros da terceira frente, os “do autor”, terminariam, felizmente, nas mãos dos melhores leitores e pesquisadores. Isto é uma alusão de que estes livros não seriam apenas “achados”, mas procurados? Como é isto?
Nilto Maciel: Em prosseguimento à resposta anterior: alguns não se tornarão logo celebridades nacionais (Moreira Campos, por exemplo), mas terão o reconhecimento de críticos e leitores mais exigentes, e seus livros (tornados raridades) serão procurados em sebos.
Cissa de Oliveira: Você diz também que foi para este tipo de livro que nasceu a Revista Literatura. Isto me diz da sua preocupação em levar ao público grande parte do que se produz em termos literários no Brasil, mas que fica no escuro. Você acredita que se mais escritores se unissem para mostrar não apenas as suas obras, mas também as dos demais, as editoras poderiam rever a questão do domínio em relação ao mercado editorial?
Nilto Maciel: Nós escritores brasileiros temos o dever de divulgar uns aos outros. A Revista Literatura nasceu para isto. Nunca publiquei figuras do baralho midiático. Nem eles precisam disso. Nem sequer sabem da minha existência ou da revista. Não importa. Se os editores vão mudar, não sei. Talvez não mudem nunca.
Cissa de Oliveira: Você é membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste/Ceará, que edita a Revista Urupema. Também é membro da Academia de Letras do Brasil, em Brasília. Fora isto, é um autor reconhecido, preservando as diferenças de categorias literárias, um Ariano Suassuna do Ceará. Vocês são amigos? Quem são os seus pares mais próximos em termos de convivência?
Nilto Maciel: Sim, sou membro de duas academias, convidado que fui para integrar-me a elas. Muito a contragosto, porque não me sinto acadêmico. Sempre fui marginal. Não tenho editores, não estou na mídia, não tenho amigos influentes, etc. Longe de mim ser um Ariano Suassuna. Ele está muitos degraus acima. Estou no patamar mais baixo. Mas não tenho inveja de ninguém. E desejo muito sucesso para todos. Como a João Ubaldo Ribeiro, que acaba de ganhar o importante Prêmio Camões. Louvor a ele, que merece todos os prêmios. Conheço um bocado de gente pelo Brasil a fora. A maioria só por carta, telefone, internet. Em Fortaleza me relaciono muito bem com todos os escritores, sejam mais velhos, como Francisco Carvalho, um dos maiores poetas do Brasil, sejam mais jovens, como Tércia Montenegro, belíssima contista.
Cissa de Oliveira: Eu fiquei impressionada com a quantidade de livros e citações envolvidas no seu estudo "Panorama do Conto Cearense". Você fez este longo estudo por achar que os registros anteriores eram poucos, dispersos, incompletos, para atualizar ou o que?
Nilto Maciel: Eu conhecia dois estudos excelentes sobre o conto cearense, de Braga Montenegro e de Sânzio de Azevedo. Além de artigos e resenhas diversas. Nenhum livro, porém, dedicado exclusivamente ao conto cearense. Este foi o motivo que me levou a pesquisar e escrever o "Panorama". Nenhuma pretensão de melhorar nada. Porque não se pode melhorar o que é melhor. Braga é (faleceu há alguns anos) um dos mais profundos estudiosos da literatura cearense, brasileira e universal no Ceará. Sânzio é doutor em Letras, pesquisador sério e dedicado. Sabe tudo e mais alguma coisa de Literatura Cearense. E também de Parnasianismo. Estou muito longe deles. Sou um aprendiz.
Cissa de Oliveira: Nilto, o que você gostaria de nos dizer que eu não perguntei?
Nilto Maciel: Acho que não há mais nada a dizer. Ainda bem que você não fez perguntas indiscretas. Se tivesse feito, eu não as responderia. Não gosto de falar de mim, de meus defeitos, de meus pecados. Por isso não escrevo mais diários. Minhas memórias estão em meus contos e romances. Estou neles. Um pouco, é claro.
Cissa de Oliveira: Digamos que eu não goste de ser (muito) indiscreta (risos), e que eu procurei não seguir alguns vieses na nossa conversa por ter intuído que você teria se aprofundado neles se assim o quisesse.
Muito obrigada Nilto, tanto por nos presentear com a sua maravilhosa “química literária” quanto por se permitir delinear um pouco mais através desta entrevista.
por Cissa de Oliveira
E aqui um artigo que eu escrevi sobre o livro "Contos Reunidos II" de Nilto Maciel: http://pt.shvoong.com/entertainment/2224026-contos-reunidos-ii/
Nilto Maciel (Baturité, 1945) é um dos fundadores de O Saco. Publicou as seguintes coleções: Itinerário, 1.ª ed. 1974, 2.ª ed. 1990, João Scortecci Editora, São Paulo, SP; Tempos de Mula Preta, 1.ª ed. 1981, Secretaria da Cultura do Ceará; 2.ª ed. 2000, Papel Virtual Editora, Rio de Janeiro, RJ; Punhalzinho Cravado de Ódio, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará.; As Insolentes Patas do Cão, 1991, João Scortecci Editora, São Paulo, SP; Babel, 1997, Editora Códice, Brasília; e Pescoço de Girafa na Poeira, 1999, Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, Brasília. Tem novelas, romances e poemas em livros. Pertenceu ao Grupo Siriará. Editor, desde 1991, em Brasília, da revista Literatura. Em 2003 a transferiu para Fortaleza. Suas narrativas mereceram artigos e ensaios de alguns comentaristas e críticos cearenses, como F. S. Nascimento, Sânzio de Azevedo, Dimas Macedo, Batista de Lima, Francisco Carvalho, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Augusto Viana, e também de outros Estados, como Foed Castro Chamma, Tanussi Cardoso, Francisco Miguel de Moura, Ronaldo Cagiano e Astrid Cabral. Tem contos traduzidos para o espanhol, o italiano e o esperanto. Ganhou alguns prêmios também no gênero conto.
E-mail: niltomaciel@uol.com.br
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Reciclagem
Um hobby ambientalista
Elas eram assim...
... mas ficaram assim
Deixaram de poluir o ambiente e podem ser reutilizadas. Coisas de Cissa!
Elas eram assim...
... mas ficaram assim
Deixaram de poluir o ambiente e podem ser reutilizadas. Coisas de Cissa!
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Modelo antigo e modelo novo
Cissa de Oliveira
Se você tivesse um vizinho, uma vizinha “modelo antigo”, daquele que não sai do portão, ou da janela ou calçada, só bisbilhotando, isso o incomodaria? Não diga! Porque a mim, mais 99,9% de possíveis inquiridos também! Nesses casos chega o momento em que o jeito é sair na dianteira; bisbilhotar antes, verificando se o tal está a postos bem na hora que se está saindo, ou então, consciente de tudo, dar uma banana pra situação e fui!
Mas isso era antigamente, certo? Mais ou menos... Porque como todo “modelo" que se preze, o antigo foi atualizado. E sabe quem é o seu vizinho bisbilhoteiro “modelo novo”? Aquele conhecido, ou conhecido dos seus conhecidos das redes sociais. Redes sociais podem ser ótimas, se bem utilizadas. No facebook, a própria rede tem mecanismos que sugerem novos amigos, considerando entre outras possibilidades o fato deste possuir amigos em comum com você.
Mas sabe aquela amiga, ou parente que jogou na “rede” todas as fotos do churrasco que vocês fizeram no feriadão? Foi bom. É, mas se tivessem lhe perguntado quanto às imagens, talvez você não colocasse aquela foto bebendo cerveja... nem aquela outra usando shorts. E aquela outra, de pijama, que seu filho cismou de acrescentar no álbum? Pois se você não sai de pijama no portão, como vai ganhar o mundo trajando um?
Tanta “diversidade de informação” faz estrago equivalente a uma exposição indesejada frente ao “modelo antigo” que espreita. Hora de pensar num jeitinho? Lembra do “fui”! lá do primeiro parágrafo? Pois é, ele pode ser usado nas mais diversas situações. Ah, e vai tranquilo, porque a “rede” armazena suas informações e assim, voltar é um clique.
O lado sombrio das redes sociais, aquele que de vez em quando se destaca pelo noticiário, fruto do excesso de exposição (informações, fotos) também deve ser considerado. Você sabia que uma foto a partir de um celular, postada nessas redes sociais pode servir de base para pessoas mal intencionadas rastrearem sua localização? Está no jornal dessa semana.
É incontestável que o ambiente virtual reproduz com fidelidade o mundo real. Falta-nos ainda uma “educação digital” que nos permita saber lidar com tantas possibilidades, e além disso tendemos a nos sentir seguros desse outro lado da tela. Ah, que saudade da dona Chiquinha, lá da casa de portão baixinho, do outro lado da rua... mas essa por certo já levou uma rasteira do tempo, esse senhor que passa indiferente a todo e qualquer modelo.
Cissa de Oliveira
Se você tivesse um vizinho, uma vizinha “modelo antigo”, daquele que não sai do portão, ou da janela ou calçada, só bisbilhotando, isso o incomodaria? Não diga! Porque a mim, mais 99,9% de possíveis inquiridos também! Nesses casos chega o momento em que o jeito é sair na dianteira; bisbilhotar antes, verificando se o tal está a postos bem na hora que se está saindo, ou então, consciente de tudo, dar uma banana pra situação e fui!
Mas isso era antigamente, certo? Mais ou menos... Porque como todo “modelo" que se preze, o antigo foi atualizado. E sabe quem é o seu vizinho bisbilhoteiro “modelo novo”? Aquele conhecido, ou conhecido dos seus conhecidos das redes sociais. Redes sociais podem ser ótimas, se bem utilizadas. No facebook, a própria rede tem mecanismos que sugerem novos amigos, considerando entre outras possibilidades o fato deste possuir amigos em comum com você.
Mas sabe aquela amiga, ou parente que jogou na “rede” todas as fotos do churrasco que vocês fizeram no feriadão? Foi bom. É, mas se tivessem lhe perguntado quanto às imagens, talvez você não colocasse aquela foto bebendo cerveja... nem aquela outra usando shorts. E aquela outra, de pijama, que seu filho cismou de acrescentar no álbum? Pois se você não sai de pijama no portão, como vai ganhar o mundo trajando um?
Tanta “diversidade de informação” faz estrago equivalente a uma exposição indesejada frente ao “modelo antigo” que espreita. Hora de pensar num jeitinho? Lembra do “fui”! lá do primeiro parágrafo? Pois é, ele pode ser usado nas mais diversas situações. Ah, e vai tranquilo, porque a “rede” armazena suas informações e assim, voltar é um clique.
O lado sombrio das redes sociais, aquele que de vez em quando se destaca pelo noticiário, fruto do excesso de exposição (informações, fotos) também deve ser considerado. Você sabia que uma foto a partir de um celular, postada nessas redes sociais pode servir de base para pessoas mal intencionadas rastrearem sua localização? Está no jornal dessa semana.
É incontestável que o ambiente virtual reproduz com fidelidade o mundo real. Falta-nos ainda uma “educação digital” que nos permita saber lidar com tantas possibilidades, e além disso tendemos a nos sentir seguros desse outro lado da tela. Ah, que saudade da dona Chiquinha, lá da casa de portão baixinho, do outro lado da rua... mas essa por certo já levou uma rasteira do tempo, esse senhor que passa indiferente a todo e qualquer modelo.
Cissa de Oliveira
terça-feira, 11 de outubro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
Campos de rosas
"... Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar..."
Herberto Helder (Poemacto II)
Herberto Hélder Luís Bernardes de Oliveira, escritor português, natural de Funchal (1930), é considerado um dos mais originais poetas vivos da língua portuguesa. Em torno do mesmo paira uma atmosfera algo misteriosa uma vez que recusa prêmios e se nega a dar entrevistas. Em 1994 foi o vencedor do "Prêmio Pessoa", que recusou.
domingo, 25 de setembro de 2011
sábado, 24 de setembro de 2011
Verdade ou Mentira
"Verdade ou Mentira" é o título do novo livro de Odete Ronchi Baltazar, que será lançado Ed. AVBL. Direto do forno, uma amostra, com a crônica "Aqui jaz um blogue". Escritora de talento, a Odete vai sacudindo a gente, com os seus enfoques e abordagens.
Aqui jaz um blogue
Odete Ronchi Baltazar
Coisa triste é visitar blog abandonado. É como se entrássemos em casas desertas, cobertas por lençóis e cheias de poeira, como a gente vê nos filmes americanos. A gente passeia pelos cômodos e não encontra sinal de vida. E pensamos em como deveria ter havido alegria pulsante todos os dias, naquele lugar, que amanheciam ávidos por novas postagens e em como tinha movimento naqueles becos em que entramos, agora, silenciosos e tristes.
Embora não goste de passear entre os escritos abandonados, como se de repente algum acordasse do abandono imposto e pudesse me assustar, vou lendo os escombros deixados pelo poeta ou contador de histórias.
Fico a me perguntar o que faz o poeta abandonar seu lugar de registro do dia a dia. Cansaço? Tédio? Preguiça? Falta de tempo? Depressão? Falta de inspiração? Morte?
E as palavras mudas o tempo todo não explicam nada. Não me contam o segredo. E fico a ler tudo com avidez para ver se encontro uma pista que revele o porquê do abandono daquele espaço.
Há aqueles blogs que, mesmo abandonados, mantêm certo glamour. Têm classe. E mesmo deixados de lado, ainda têm atrativos: os mesmos de quando eram atualizados o tempo todo. Têm categoria.
Há, porém, aqueles em que o abandono aparece em toda parte. Ficaram o obsoletos no layout, as imagens foram substituídas por um "x" e as palavras já não dizem nada. Os links estão quebrados e não levam mais a lugar algum.
É a decadência visível do espaço. Tem-se que acender a luz em cada cômodo e, mesmo assim, há aquelas que estão queimadas ou que faltam. A poeira intoxica e coça o nariz. É como se a gente descobrisse um lugar com corpos destroçados e em decomposição.
Triste, muito triste visitar um blog assim. É como se passeássemos olhando lápides de "Aqui jaz". Sensação de solidão, de adeus.
Passo depressa e, mais que depressa, clico em outros links à procura de vida. Deixemos os mortos em paz. Riquiescant in pace. Amém.
Odete Ronchi Baltazar
Aqui jaz um blogue
Odete Ronchi Baltazar
Coisa triste é visitar blog abandonado. É como se entrássemos em casas desertas, cobertas por lençóis e cheias de poeira, como a gente vê nos filmes americanos. A gente passeia pelos cômodos e não encontra sinal de vida. E pensamos em como deveria ter havido alegria pulsante todos os dias, naquele lugar, que amanheciam ávidos por novas postagens e em como tinha movimento naqueles becos em que entramos, agora, silenciosos e tristes.
Embora não goste de passear entre os escritos abandonados, como se de repente algum acordasse do abandono imposto e pudesse me assustar, vou lendo os escombros deixados pelo poeta ou contador de histórias.
Fico a me perguntar o que faz o poeta abandonar seu lugar de registro do dia a dia. Cansaço? Tédio? Preguiça? Falta de tempo? Depressão? Falta de inspiração? Morte?
E as palavras mudas o tempo todo não explicam nada. Não me contam o segredo. E fico a ler tudo com avidez para ver se encontro uma pista que revele o porquê do abandono daquele espaço.
Há aqueles blogs que, mesmo abandonados, mantêm certo glamour. Têm classe. E mesmo deixados de lado, ainda têm atrativos: os mesmos de quando eram atualizados o tempo todo. Têm categoria.
Há, porém, aqueles em que o abandono aparece em toda parte. Ficaram o obsoletos no layout, as imagens foram substituídas por um "x" e as palavras já não dizem nada. Os links estão quebrados e não levam mais a lugar algum.
É a decadência visível do espaço. Tem-se que acender a luz em cada cômodo e, mesmo assim, há aquelas que estão queimadas ou que faltam. A poeira intoxica e coça o nariz. É como se a gente descobrisse um lugar com corpos destroçados e em decomposição.
Triste, muito triste visitar um blog assim. É como se passeássemos olhando lápides de "Aqui jaz". Sensação de solidão, de adeus.
Passo depressa e, mais que depressa, clico em outros links à procura de vida. Deixemos os mortos em paz. Riquiescant in pace. Amém.
Odete Ronchi Baltazar
domingo, 18 de setembro de 2011
Gostei dessa notícia!
Em recente contato, o Conselho Municipal de Cultura de Manaus solicitou autorização para reeditar o meu livro "A pontinha das páginas", o que me deixou muito feliz. O livro, vencedor na categoria crônicas do "I Prêmios Literários Cidade de Manaus" (2006) será distribuído para as bibliotecas municipal e estadual, escolas municipais, universidades e afins.
"...quero lhe afirmar que a procura por essa coleção de 2006 que se esgotou aqui para nós é de muita valia para o conhecimentos de jovens escritores e leitores dessa área..."
Não é fantástico?
E mais, como eu receberei vários exemplares a título de direitos autorais, um novo lançamento será realizado. Avisarei aos amigos na época.
Cissa de Oliveira
"...quero lhe afirmar que a procura por essa coleção de 2006 que se esgotou aqui para nós é de muita valia para o conhecimentos de jovens escritores e leitores dessa área..."
Não é fantástico?
E mais, como eu receberei vários exemplares a título de direitos autorais, um novo lançamento será realizado. Avisarei aos amigos na época.
Cissa de Oliveira
sábado, 17 de setembro de 2011
Um ponto de vista ou a vista de um ponto?
Fotografei a capuchinha (Tropaeolum majus) propositalmente por este ângulo. O dia estava lindamente ensolarado e eu queria que o resultado da foto lembrasse uma floresta! A Capuchinha é também conhecida como chagas, flor-do-sangue e agrião-do-méxico. Suas flores são comestíveis.
Consta que a capuchinha tem as seguintes propriedades: é antibiótica, diurética, expectorante, ativa a circulação,desinfeta as vias urinárias, age limpando os brônquios, combate a acne, as afecções da pele,a pele envelhecida,a caspa, a queda de cabelo,funciona como tônico capilar e aumenta o apetite e acba com o escorbuto.
A Capuchinha é fácil de cultivar. Num canteiro ou num vaso, onde possa receber bastante luz solar, ela floresce bem. Decorativa, pode compor bordas em jardins ou formar um lindo arranjo, plantada numa jardineira e instalada numa varanda ou peitoril ensolarado. A planta se reproduz por meio de sementes, por divisão de touceiras ou estaquia, sendo que o melhor método é o da divisão. O plantio pode ser feito em qualquer época do ano porém, durante a primavera, a capuchinha se desenvolve com maior rapidez.
Não é muito exigente quanto ao solo. Para o plantio em vasos ou jardineiras, pode-se utilizar:
1 parte de areia
2 partes de terra comum de jardim
2 partes de terra vegetal
Para melhorar a qualidade da mistura, pode-se acrescentar 1 parte de vermiculita (encontrada facilmente em lojas de produtos para hortas e jardins). Só é possível obter bons resultados no cultivo da capuchinha quando contamos com a incidência de luz solar direta, pelos menos durante algumas horas do dia. Quanto às regas, devem ser espaçadas, tendo o cuidado de manter o solo úmido, mas nunca encharcado.
Delicadas flores (inflorescências) do manjericão.
O manjericão é uma excelente fonte de vitamina K e uma fonte rica em ferro, cálcio e vitamina A. Além disso, fornece também fibra alimentar, manganês, magnésio, vitamina C e potássio.
A Nádia e eu, na horta de ervas medicinais do Paulo Decourt.
sábado, 3 de setembro de 2011
Poema XXIII
Mauro Veras
És tão suave
que cabes num grão,
num voo de ave solitária,
na brisa que refresca a visão
embaçada por dias, noites e cidades.
És tão suave
que saltas da bruma
que se quebra nas praias
e reacende os olhos que ousam
buscar na brisa a alegria das verdades.
És tão suave
que tocá-la é loucura ...
é como desejar a jóia rara,
a beleza amparada na candura
de toda suavidade. Tu és a vida desejada!
És tão suave
que tens a ternura
que dói quieta nos amantes,
que queima o ventre na aurora do torpor
que aflora dos toques, dos beijos, dos mágicos instantes.
És tão suave
que vais ao vento
que move os cabelos e as saias
do tempo, e retornas sempre neste sonho sem fim,
pois nada é mais singelo que tu, nem a mínima pétala do jasmim.
És tão suave
que te recebo inteira,
num movimento que se espraia
dentro de mim. E assim, como se ao recebê-la
minha alma sedenta do belo pudesse eternamente tocá-la, enfim.
MAURO VERAS, do livro O chantili com porcelana e a distância dela (obra literária sob registro ISBN 87-7325, CDO – 027.0, Ed. Sette Letras. Poesia Brasileira, previsto para 2012).
És tão suave
que cabes num grão,
num voo de ave solitária,
na brisa que refresca a visão
embaçada por dias, noites e cidades.
És tão suave
que saltas da bruma
que se quebra nas praias
e reacende os olhos que ousam
buscar na brisa a alegria das verdades.
És tão suave
que tocá-la é loucura ...
é como desejar a jóia rara,
a beleza amparada na candura
de toda suavidade. Tu és a vida desejada!
És tão suave
que tens a ternura
que dói quieta nos amantes,
que queima o ventre na aurora do torpor
que aflora dos toques, dos beijos, dos mágicos instantes.
És tão suave
que vais ao vento
que move os cabelos e as saias
do tempo, e retornas sempre neste sonho sem fim,
pois nada é mais singelo que tu, nem a mínima pétala do jasmim.
És tão suave
que te recebo inteira,
num movimento que se espraia
dentro de mim. E assim, como se ao recebê-la
minha alma sedenta do belo pudesse eternamente tocá-la, enfim.
MAURO VERAS, do livro O chantili com porcelana e a distância dela (obra literária sob registro ISBN 87-7325, CDO – 027.0, Ed. Sette Letras. Poesia Brasileira, previsto para 2012).
terça-feira, 30 de agosto de 2011
O galã do cemitério
Mora Alves
Foi uma notícia terrível, de cortar o coração. O querido Zé, que trabalhou anos e anos naquela empresa, de uma hora para outra, bateu com as botas. Deixou o velho e amigo camarada, o Severino, um sujeito baixinho, cabelos grisalhos - tingidos, vez em quando -, solteirão convicto, metido a galã.
Andava sempre com um pente no bolso da camisa. O tal objeto era um acessório indispensável, pois tinha pavor de que seus cabelos ficassem em desalinho; e se de repente pintasse um broto? Não, ele não podia se descuidar!
Quando recebeu a notícia da morte do amigo, foi como se um raio caísse em sua cabeça, até pensou em se jogar de um viaduto, tamanha foi a sua dor, porém se conteve. “A vida continua...”pensou. E naquela manhã de um calor insuportável, ele foi para casa e escolheu o melhor terno, e até usou uma loção com uma fragrância forte. O amigo que desculpasse, mas mesmo sendo numa ocasião como aquela, não podia desses detalhes. E se de repente aparecesse o grande amor de sua vida? - dizia ele com seus botões, enquanto se ajeitava no espelho.
Com muito pesar se dirigiu para o velório, e lá chegando, rapidamente passou o olhar pelo recinto, como um gavião procurando sua presa. No entanto só encontrou os amigos da empresa e o velho amigo ali estendido. A comoção era geral, pois todos gostavam demais do Zé.
Depois da última homenagem, todos se dirigiram para o local do sepultamento Severino ia cabisbaixo, amparado por alguns amigos, tamaha dor. Antes do corpo descer a sepultura, poderiam jogar um punhado de terra na cova, num último adeus. Severino, como que num ritual, antes de executar o pequeno gesto, mais do que depressa pegou seu pente e arrumou os cabelos e somente depois pegou o punhado de terra. O que ele nem imaginava, porém, acabou acontecendo. Ao arremessar o punhado de terra, se desiquilibrou e caiu dentro da cova.
Severino ficou tão apavorado que começou a gritar por socorro, e a dizer que era muito jovem ainda, e que não queria morrer antes de encontrar seu grande amor. Os amigos mais do que depressa o tiraram dali, pálido e tremendo feito vara verde. Ainda por cima gritava de dor, pois havia fraturado a clavícula. Como se não bastasse, e para seu desespero, todos caíram numa tremenda gargalhada. Não, não tinha como não rir daquela cena tão pitoresca.
Logo após o enterro Severino foi socorrido num hospital, ficando afastado do trabalho por seis meses. O acontecimento já tinha se tornado motivo de piada na empresa, e como a vida segue seu rumo, quando ele voltou, ainda um tanto sem graça pelo vexame daquele dia, foi recebido por todos como o galã do cemitério.
Mora Alves
Histórias que o povo conta
www.moraalves.com
Maria Aparecida Moreira Alves é minha irmã e também escreve. Nascida em São Paulo, casada, três filhos, funcionária pública na Secretaria da Saúde no município de Guarulhos-SP, na qual é moradora desde 1983. Escreve poesias, e atualmente tem se encontrado também escrevendo contos, e um romance. Usa o pseudônimo Mora Alves e já participou de antologias pela editora AllPrint. Uma frase que define tudo o que já viveu: “estamos sempre escrevendo a nossa História; Se tivesse que reescrever a minha, ficaria tudo exatamente igual, não mudaria nem uma vírgula”.
Foi uma notícia terrível, de cortar o coração. O querido Zé, que trabalhou anos e anos naquela empresa, de uma hora para outra, bateu com as botas. Deixou o velho e amigo camarada, o Severino, um sujeito baixinho, cabelos grisalhos - tingidos, vez em quando -, solteirão convicto, metido a galã.
Andava sempre com um pente no bolso da camisa. O tal objeto era um acessório indispensável, pois tinha pavor de que seus cabelos ficassem em desalinho; e se de repente pintasse um broto? Não, ele não podia se descuidar!
Quando recebeu a notícia da morte do amigo, foi como se um raio caísse em sua cabeça, até pensou em se jogar de um viaduto, tamanha foi a sua dor, porém se conteve. “A vida continua...”pensou. E naquela manhã de um calor insuportável, ele foi para casa e escolheu o melhor terno, e até usou uma loção com uma fragrância forte. O amigo que desculpasse, mas mesmo sendo numa ocasião como aquela, não podia desses detalhes. E se de repente aparecesse o grande amor de sua vida? - dizia ele com seus botões, enquanto se ajeitava no espelho.
Com muito pesar se dirigiu para o velório, e lá chegando, rapidamente passou o olhar pelo recinto, como um gavião procurando sua presa. No entanto só encontrou os amigos da empresa e o velho amigo ali estendido. A comoção era geral, pois todos gostavam demais do Zé.
Depois da última homenagem, todos se dirigiram para o local do sepultamento Severino ia cabisbaixo, amparado por alguns amigos, tamaha dor. Antes do corpo descer a sepultura, poderiam jogar um punhado de terra na cova, num último adeus. Severino, como que num ritual, antes de executar o pequeno gesto, mais do que depressa pegou seu pente e arrumou os cabelos e somente depois pegou o punhado de terra. O que ele nem imaginava, porém, acabou acontecendo. Ao arremessar o punhado de terra, se desiquilibrou e caiu dentro da cova.
Severino ficou tão apavorado que começou a gritar por socorro, e a dizer que era muito jovem ainda, e que não queria morrer antes de encontrar seu grande amor. Os amigos mais do que depressa o tiraram dali, pálido e tremendo feito vara verde. Ainda por cima gritava de dor, pois havia fraturado a clavícula. Como se não bastasse, e para seu desespero, todos caíram numa tremenda gargalhada. Não, não tinha como não rir daquela cena tão pitoresca.
Logo após o enterro Severino foi socorrido num hospital, ficando afastado do trabalho por seis meses. O acontecimento já tinha se tornado motivo de piada na empresa, e como a vida segue seu rumo, quando ele voltou, ainda um tanto sem graça pelo vexame daquele dia, foi recebido por todos como o galã do cemitério.
Mora Alves
Histórias que o povo conta
www.moraalves.com
Maria Aparecida Moreira Alves é minha irmã e também escreve. Nascida em São Paulo, casada, três filhos, funcionária pública na Secretaria da Saúde no município de Guarulhos-SP, na qual é moradora desde 1983. Escreve poesias, e atualmente tem se encontrado também escrevendo contos, e um romance. Usa o pseudônimo Mora Alves e já participou de antologias pela editora AllPrint. Uma frase que define tudo o que já viveu: “estamos sempre escrevendo a nossa História; Se tivesse que reescrever a minha, ficaria tudo exatamente igual, não mudaria nem uma vírgula”.
domingo, 28 de agosto de 2011
Uma cidade pequena demais
Cissa de Oliveira
Ele se deitou na cama meio atravessado, e o motivo, outro não foi senão o de permanecer sob o sol nada acanhado que invadia o quarto. Pela janela o olhar alçou vôo, antes de pairar sobre a copa alta de uma árvore que o vento sacudia lá no jardim. A leve contração entre as sobrancelhas era indício de um apelo doendo nele como um punhal metafísico do qual não pudesse, ou não quisesse se livrar. Fez menção de se virar para o outro lado mas apenas apalpou o travesseiro e afundou os pensamentos.
Nas maçãs de alguns rostos fica patente o amadurecimento; não no rosto daquele homem. Ali, o tempo se retivera, como se, recobrindo toda uma casta de uvas, planejasse alguma coisa a mais; um vinho especial?
Levantou-se repentinamente. Sentindo ímpetos de mandar derrubar qualquer coisa, a casa até. Acabou na cozinha, besuntando com azeite uma porção de torradas que depois saboreou com apetite, enquanto pensava: A vida é cíclica, menos mal, ainda que um dia, o espanto final. Calçou os tênis. Saiu.
Remoendo os pensamentos, descobriu o que o apoquentava: ele deveria ser breve, e planejou, ali mesmo, entre os quarteirões que percorrera: a princípio encurtaria frases. Se fosse o caso, viraria escritor. Exerceria a síntese através da escrita. Talvez escrevesse um livro com cem palavras. Pão com queijo. Queijo com pão. Pão, queijo. Pão. Queijo. Depois, calejado pela abreviação, a síntese abarcaria a oratória, quiçá, até o pensamento, raiz do bem e do mal. Seria direto. Calmo e direto. Inatingível. Difícil de ser sondado.
Voltou pra casa pensando na consulta médica do dia anterior. O médico tinha parado de remexer nos papéis, abaixado a cabeça e deixado o olhar escapulir por sobre a parte superior dos óculos.
- Excesso de potássio... O senhor come bananas?
- Sim.
- Quantas?
As que me dá vontade... retraiu os lábios para não dizer o que pensou, como se acaso um homem não pudesse nem mais comer bananas sem ser sondado!
- Uma... duas, por dia.
- Estão proibidas, assim como as mulheres bonitas... Teria ouvido aquilo? Com certeza, porque o médico rira zombeteiro, para depois finalizar: - Viu como poderia ser pior? Pense, seu... como é mesmo seu nome? – pense! A vida é o que de melhor possui.
As mulheres belas... Na juventude fora adepto do pensamento de que nesse caso a derrota é sempre momentânea. Depois, levou “tanto pé” da vida – inclusive de algumas mulheres, agora admitia – que decidiu colocar as coisas onde estas devem estar. O diacho é que o tempo passa rápido, e agora, justamente, dera de pensar nela, a Izildinha, e nos seus cabelos pretos. Pronto, só tinha um jeito, da próxima vez que a visse desperguntaria o perguntado, falaria tudo ao contrário, tudo com duas palavras, no máximo. A repentina decisão foi levada a ferro e a fogo, porque em casa foi direto ao escritório, treinar no computador.
O nada. Ótima frase para começar. Uma frase com duas palavras, e ainda falando sobre o nada. Sensacional! Ainda ficou um tempo por ali, remoendo a frase, e de remoer o nada, nada mais escreveu. Síntese total. Por que? Por que? Pior, quanto mais pensava mais lhe doía, até dar por si, exausto. A cabeça por estourar. Decidiu esquecer tudo até a quarta-feira, que afinal seria no dia seguinte.
Preparado, empoleirou-se em frente ao computador. Todo revestido de si, decidiu não pensar; escreveria frases curtas, pois isso deveria trazer a almejada síntese.
Não, não era o nada.
Só a quietude.
O tempo que se desfia.
Ânsia. Coração de estrelas.
Lençol da poesia.
Não, não era o nada.
Só repetição silenciosa.
Mesmas mós
numa tarde morna.
Não, não era o nada.
Só um segredo
com a força de revoada.
Mil pássaros.
Mais nada.
Não, não era o nada.
E nunca
será.
O homem ainda releu o escrito antes de rasgá-lo em mais de mil pedacinhos. Aquilo era poesia, oh, sheet!, bandeira aberta, estendida, hasteada. Precisava abreviar mais. Na outra quarta-feira saiu da cidade sem dizer nada a ninguém. Aquela era pequena demais pra ele mais a Izildinha e seus cabelos pretos.
Cissa de Oliveira
Ele se deitou na cama meio atravessado, e o motivo, outro não foi senão o de permanecer sob o sol nada acanhado que invadia o quarto. Pela janela o olhar alçou vôo, antes de pairar sobre a copa alta de uma árvore que o vento sacudia lá no jardim. A leve contração entre as sobrancelhas era indício de um apelo doendo nele como um punhal metafísico do qual não pudesse, ou não quisesse se livrar. Fez menção de se virar para o outro lado mas apenas apalpou o travesseiro e afundou os pensamentos.
Nas maçãs de alguns rostos fica patente o amadurecimento; não no rosto daquele homem. Ali, o tempo se retivera, como se, recobrindo toda uma casta de uvas, planejasse alguma coisa a mais; um vinho especial?
Levantou-se repentinamente. Sentindo ímpetos de mandar derrubar qualquer coisa, a casa até. Acabou na cozinha, besuntando com azeite uma porção de torradas que depois saboreou com apetite, enquanto pensava: A vida é cíclica, menos mal, ainda que um dia, o espanto final. Calçou os tênis. Saiu.
Remoendo os pensamentos, descobriu o que o apoquentava: ele deveria ser breve, e planejou, ali mesmo, entre os quarteirões que percorrera: a princípio encurtaria frases. Se fosse o caso, viraria escritor. Exerceria a síntese através da escrita. Talvez escrevesse um livro com cem palavras. Pão com queijo. Queijo com pão. Pão, queijo. Pão. Queijo. Depois, calejado pela abreviação, a síntese abarcaria a oratória, quiçá, até o pensamento, raiz do bem e do mal. Seria direto. Calmo e direto. Inatingível. Difícil de ser sondado.
Voltou pra casa pensando na consulta médica do dia anterior. O médico tinha parado de remexer nos papéis, abaixado a cabeça e deixado o olhar escapulir por sobre a parte superior dos óculos.
- Excesso de potássio... O senhor come bananas?
- Sim.
- Quantas?
As que me dá vontade... retraiu os lábios para não dizer o que pensou, como se acaso um homem não pudesse nem mais comer bananas sem ser sondado!
- Uma... duas, por dia.
- Estão proibidas, assim como as mulheres bonitas... Teria ouvido aquilo? Com certeza, porque o médico rira zombeteiro, para depois finalizar: - Viu como poderia ser pior? Pense, seu... como é mesmo seu nome? – pense! A vida é o que de melhor possui.
As mulheres belas... Na juventude fora adepto do pensamento de que nesse caso a derrota é sempre momentânea. Depois, levou “tanto pé” da vida – inclusive de algumas mulheres, agora admitia – que decidiu colocar as coisas onde estas devem estar. O diacho é que o tempo passa rápido, e agora, justamente, dera de pensar nela, a Izildinha, e nos seus cabelos pretos. Pronto, só tinha um jeito, da próxima vez que a visse desperguntaria o perguntado, falaria tudo ao contrário, tudo com duas palavras, no máximo. A repentina decisão foi levada a ferro e a fogo, porque em casa foi direto ao escritório, treinar no computador.
O nada. Ótima frase para começar. Uma frase com duas palavras, e ainda falando sobre o nada. Sensacional! Ainda ficou um tempo por ali, remoendo a frase, e de remoer o nada, nada mais escreveu. Síntese total. Por que? Por que? Pior, quanto mais pensava mais lhe doía, até dar por si, exausto. A cabeça por estourar. Decidiu esquecer tudo até a quarta-feira, que afinal seria no dia seguinte.
Preparado, empoleirou-se em frente ao computador. Todo revestido de si, decidiu não pensar; escreveria frases curtas, pois isso deveria trazer a almejada síntese.
Não, não era o nada.
Só a quietude.
O tempo que se desfia.
Ânsia. Coração de estrelas.
Lençol da poesia.
Não, não era o nada.
Só repetição silenciosa.
Mesmas mós
numa tarde morna.
Não, não era o nada.
Só um segredo
com a força de revoada.
Mil pássaros.
Mais nada.
Não, não era o nada.
E nunca
será.
O homem ainda releu o escrito antes de rasgá-lo em mais de mil pedacinhos. Aquilo era poesia, oh, sheet!, bandeira aberta, estendida, hasteada. Precisava abreviar mais. Na outra quarta-feira saiu da cidade sem dizer nada a ninguém. Aquela era pequena demais pra ele mais a Izildinha e seus cabelos pretos.
Cissa de Oliveira
As flores sabem o sol
...porque se as folhas sabem procurar pelo sol, as flores não fazem por menos.
Não é falha, foi proposital; girei a câmera um pouquinho
Essa flor é da planta conhecida como falso baobá (Adenium obesum). Ela ama o sol mas estava dentro de casa porque o vento na varanda era muito forte e temi pela flor.
Essas orquídeas (Catasetum fimbriatum)eu acompanhei desde que nasceu o primeiro broto.
Esse é o meu pé...
Essas rosas, o meu genro Mateus que deu pra Amanda, e olha eles aí:
Gosto dessa cor
Direto da varanda... primaveras. A planta que eu dei pra Nani, mas que ainda está por aqui.
Não é falha, foi proposital; girei a câmera um pouquinho
Essa flor é da planta conhecida como falso baobá (Adenium obesum). Ela ama o sol mas estava dentro de casa porque o vento na varanda era muito forte e temi pela flor.
Essas orquídeas (Catasetum fimbriatum)eu acompanhei desde que nasceu o primeiro broto.
Esse é o meu pé...
Essas rosas, o meu genro Mateus que deu pra Amanda, e olha eles aí:
Gosto dessa cor
Direto da varanda... primaveras. A planta que eu dei pra Nani, mas que ainda está por aqui.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Resquicios…
Luis Nelson
Os tempos mudaram. Já vinham mudando de forma cada vez mais radical desde os anos sessenta, mas ultimamente, ser atropelado pelos surpreendentes eventos do terceiro milênio virou rotina tanto para o bem como para o mal.
Descartemos o mal, o terrível, o inferno das cruzadas em sentido inverso, terceira guerra mundial que une o mundo saído das trevas da credulidade assassina da inquisição para a Luz, para a Cultura e Ciência, contra o retrocesso para as cavernas, “terra prometida” dos esquizofrênicos doidos varridos que ficam naquela ridícula posição de bunda para o ar tomando a liberdade de oferecer o resto da humanidade e eles próprios em holocausto a divindades inventadas por ridículos visionários.
Falemos então, exatamente em choque frontal com os clubes do bolinha que escreveram conceitos filosóficos em proveito próprio depois elevados ao status de “religiões”, do espaço que as mulheres vêm paulatinamente ocupando por mérito próprio, esforço admirável demonstrado em todos os níveis escolares, na Universidade, em todos os ramos da ciência, etc., até chegarmos à comédia da vida privada na qual nós tentamos desesperadamente salvar os resquícios da carga machista paradoxalmente recebida de nossas mães e demais mulheres que nos criaram!
Nesses resquícios estão contidos desde a resistência (cada vez menor) de tomar parte ativa nas prendas domésticas dividindo o trabalho com a cara metade que ajuda a ganhar o vil mas necessário metal com que se compram os melões, até continuar acreditando que a facadazinha no matrimônio é um pressuposto de quem nasce com penduricalhos, sendo até pouco “viril” conceder que não trai não senhor! Mas não adianta… dizer que “nunca risquei o fósforo fora da caixa”, porque a dúvida sempre vai persistir! Eu vou até mais longe: Ninguém deste mundo será insano(a) o suficiente para colocar a mão no fogo em suporte de tal afirmação, muito menos sua esposa que pode até ser crédula, pero no mucho!...
Se você fizer tal afirmação no clube ou no bar à segunda rodada de drinks, ela detonará imensa e geral gargalhada pela boa piada! Os cavalheiros presentes que eventualmente não hajam realmente traído sua dedicada e fiel companheira, se engasgarão pelo riso dobrado e em meio ao seu riso, de forma mais ou menos aberta, “deixarão saber” que freqüentam alcovas alheias com máscula regularidade!
"Nelson Castro, ou Luis C. Nelson, ou simplesmente Nelsinho, nasceu na "invicta e mui nobre" cidade do Porto, Portugal, nos idos de 1944. Seu pai era um daqueles fotógrafos-artistas d'estudio, que retocava pacientemente os negativos e coloria manualmente suas incríveis ampliações, delas fazendo verdadeiras obras de arte, geralmente muito mal pagas. De seu pai, recebeu não só o gosto pela fotografia e paixão pela literatura e musica, mas também "cabeça" e habilidade para as coisas técnicas. E foram essas habilidades que o levaram a trilhar os caminhos da formação nas áreas técnicas, o que lhe valeu a oportunidadede haver sido aluno do Poeta Pedro Homem de Melo, que na Escola Industrial lecionava língua portuguesa. Sua trajetória profissional incluiu estaleiros navais em Angola e no Brasil, mas gastou a maior parte dasua vida nas lides da exploração de Petróleo ou a ela ligado ao redor do planeta, motivo pelo qual gosta de dizer-se simplesmente 'Oilman'. A poesia é sua mais cara atividade no universo das letras, no qual aliás não possui qualquer crédito acadêmico, dedicando-se também a contos e crônicas da vida real."
Os tempos mudaram. Já vinham mudando de forma cada vez mais radical desde os anos sessenta, mas ultimamente, ser atropelado pelos surpreendentes eventos do terceiro milênio virou rotina tanto para o bem como para o mal.
Descartemos o mal, o terrível, o inferno das cruzadas em sentido inverso, terceira guerra mundial que une o mundo saído das trevas da credulidade assassina da inquisição para a Luz, para a Cultura e Ciência, contra o retrocesso para as cavernas, “terra prometida” dos esquizofrênicos doidos varridos que ficam naquela ridícula posição de bunda para o ar tomando a liberdade de oferecer o resto da humanidade e eles próprios em holocausto a divindades inventadas por ridículos visionários.
Falemos então, exatamente em choque frontal com os clubes do bolinha que escreveram conceitos filosóficos em proveito próprio depois elevados ao status de “religiões”, do espaço que as mulheres vêm paulatinamente ocupando por mérito próprio, esforço admirável demonstrado em todos os níveis escolares, na Universidade, em todos os ramos da ciência, etc., até chegarmos à comédia da vida privada na qual nós tentamos desesperadamente salvar os resquícios da carga machista paradoxalmente recebida de nossas mães e demais mulheres que nos criaram!
Nesses resquícios estão contidos desde a resistência (cada vez menor) de tomar parte ativa nas prendas domésticas dividindo o trabalho com a cara metade que ajuda a ganhar o vil mas necessário metal com que se compram os melões, até continuar acreditando que a facadazinha no matrimônio é um pressuposto de quem nasce com penduricalhos, sendo até pouco “viril” conceder que não trai não senhor! Mas não adianta… dizer que “nunca risquei o fósforo fora da caixa”, porque a dúvida sempre vai persistir! Eu vou até mais longe: Ninguém deste mundo será insano(a) o suficiente para colocar a mão no fogo em suporte de tal afirmação, muito menos sua esposa que pode até ser crédula, pero no mucho!...
Se você fizer tal afirmação no clube ou no bar à segunda rodada de drinks, ela detonará imensa e geral gargalhada pela boa piada! Os cavalheiros presentes que eventualmente não hajam realmente traído sua dedicada e fiel companheira, se engasgarão pelo riso dobrado e em meio ao seu riso, de forma mais ou menos aberta, “deixarão saber” que freqüentam alcovas alheias com máscula regularidade!
"Nelson Castro, ou Luis C. Nelson, ou simplesmente Nelsinho, nasceu na "invicta e mui nobre" cidade do Porto, Portugal, nos idos de 1944. Seu pai era um daqueles fotógrafos-artistas d'estudio, que retocava pacientemente os negativos e coloria manualmente suas incríveis ampliações, delas fazendo verdadeiras obras de arte, geralmente muito mal pagas. De seu pai, recebeu não só o gosto pela fotografia e paixão pela literatura e musica, mas também "cabeça" e habilidade para as coisas técnicas. E foram essas habilidades que o levaram a trilhar os caminhos da formação nas áreas técnicas, o que lhe valeu a oportunidadede haver sido aluno do Poeta Pedro Homem de Melo, que na Escola Industrial lecionava língua portuguesa. Sua trajetória profissional incluiu estaleiros navais em Angola e no Brasil, mas gastou a maior parte dasua vida nas lides da exploração de Petróleo ou a ela ligado ao redor do planeta, motivo pelo qual gosta de dizer-se simplesmente 'Oilman'. A poesia é sua mais cara atividade no universo das letras, no qual aliás não possui qualquer crédito acadêmico, dedicando-se também a contos e crônicas da vida real."
terça-feira, 23 de agosto de 2011
A cassação do ex-prefeito Hélio
Cissa de Oliveira
Então é assim, Campinas está sem prefeito. Aliás, estava muito antes da saída de Hélio, prefeito cassado. Caos político. O ex e desaparecido prefeito de Campinas, Hélio de Oliveira Santos, foi cassado numa sessão de julgamento histórica da Câmara Municipal de Campinas, que durou 44 horas. Dentre 33 vereadores, 32 votaram a favor da cassação.
Hélio foi considerado culpado em três situações, mas esse resultado em apenas uma delas bastaria para cassar o mandato dele. Irregularidades no caso Sanasa, onde fraudes em contratos foram descobertas; irregularidades na liberação de terrenos para a instalação de antenas de telefonia celular, e irregularidades na liberação de alvarás para empreendimentos.
Fora isso, ele foi considerado culpado por omissão, negligência e quebra de decoro no caso das denúncias envolvendo a primeira-dama Rosely Nassim Jorge Santos que, juntamente com Francisco Lagos, coordenador de Comunicação, Carlos Henrique Pinto, ex-secretário de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública, e o vice Demétrio Vilagra, agia num esquema de fraudes em licitação, corrupção e formação de quadrilha,sendo ela própria, a chefe do esquema.
Todos sabemos que o doutor Hélio era um prefeito bem aceito pelo povo, além de ser considerado um político exemplar, e assim, fica na população um certo pesar por tudo isto, não apenas por Campinas, ou pelo político, mas pela pessoa dele. Não se pode negar que obras importantes foram realizadas durante o primeiro mandato e até no segundo. Mas a que custo? É o que poderíamos nos perguntar agora.
Debates acalorados a gente ouve não apenas nos noticiários, mas também no trabalho, nas ruas, em casa, em todo lugar. Alguns apostam que o prefeito cassado ainda não está completamente fora da política. Outros, ao contrário, “que o povo tem memória curta”, sabe como é? Não viu o que aconteceu com o Collor?
Erros do prefeito cassado: Trazer pessoas sem ética para integrar a equipe política foi talvez o maior deles. Pior: dizer que não sabia o que a mulher fazia, pareceu coisa de filme, até porque ficou demonstrado que era ela a “chefe” do esquema. E filme por filme, não nos esqueçamos que este era um de muita ação, com maletas recheadas de dinheiro, conversas em código, e outras lambanças, puro desrespeito e menosprezo à inteligência do povo. Partindo para o segundo mandato ele demonstrou segurança no próprio governo. Tudo bem digno de uma manchete sensacionalista. Eu sugiro ”Prefeito volta ao local do crime e é cassado”.
Eu falei em lambança? Ah, sim, é que o vice que assumiu a prefeitura não é ninguém menos do que Demétrio Vilagra – o do terceiro parágrafo, lembra? – e que até ficou preso por alguns dias, recentemente, por ter o nome envolvido no esquema de fraudes em licitação, corrupção e formação de quadrilha.
Então é assim, Campinas está sem prefeito.
Cissa de Oliveira
sábado, 20 de agosto de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
Felicidade, a palavra do dia
para o meu pai
Antonio Alves Moreira, meu pai. Esse gatinho muito bem recebido, apareceu um dia, lá na chácara
Curiosamente, já me pediram para escrever sobre qual seria o segredo da felicidade. Quem sou eu! Aqui com os meus botões, acho que isso varia de pessoa para pessoa porque envolve experiências, amadurecimento, redescobrimento próprio e também do outro.
Quando um bebê nasce, a mãe logo pergunta ou confere se é perfeita a criança. - Sim, é perfeita! Fugaz instante de completa felicidade. Tudo mais passa a ser um mero detalhe. Mas a gente se afasta rápido de instantes mágicos como esse. E pela vida afora nos perdemos quanto ao sentido da felicidade.
Já fui feliz ministrando aulas em condições totalmente inóspitas, e estagiando numa universidade no Japão. Já atravessei o Rio São Francisco, o Atlântico e até o Pacífico, como retirante e como turista e em ambos fui feliz do mesmo modo. Ambos envolviam expectativas e responsabilidades diferentes.
Acredito que a felicidade more em dois principais lugares: primeiro, no reconhecimento do quanto já somos felizes. Depois, no sonho. Na expectativa de novas realizações. Se você acha que já tem tanto, mas tanto, inclusive como ser humano, que não precise mais sonhar, é melhor se beliscar para ver se ainda está vivo.
Por outro lado, quem se diz infeliz, deveria antes fazer um estágio, mas também pode ser uma visita a um asilo, orfanato ou hospital. Lá, a gente vê muita coisa, principalmente a nossa fugacidade. Quiçá, enxergue a própria felicidade. Sei o que é isso. Numa determinada época o meu trabalho era estudar num hospital. Penso que depois disso eu passei a entender melhor o meu pai. Ele foi funcionário de um grande hospital, não me pergunte por quantos anos. Aposentou-se lá. Nunca conheci tranco que o derrubasse. Não importava o tamanho do abismo, da molecagem ou mesmo da falsidade. Era como se o próprio mundo fosse muito pequeno. E é. Ele deve ter aprendido muito por lá. Deve ser por isso que eu nunca vi alguém tão justamente empossado de tanta felicidade.
Felicidade, não sei se é genético ou não. Pode ser uma questão de entendimento, embora, posto que sentimento, não seja racional. Seria a felicidade uma questão de decisão?
Da felicidade eu não sei o segredo e só posso falar dela nesses termos.
Felicidades!
Cissa de Oliveira
Antonio Alves Moreira, meu pai. Esse gatinho muito bem recebido, apareceu um dia, lá na chácara
Curiosamente, já me pediram para escrever sobre qual seria o segredo da felicidade. Quem sou eu! Aqui com os meus botões, acho que isso varia de pessoa para pessoa porque envolve experiências, amadurecimento, redescobrimento próprio e também do outro.
Quando um bebê nasce, a mãe logo pergunta ou confere se é perfeita a criança. - Sim, é perfeita! Fugaz instante de completa felicidade. Tudo mais passa a ser um mero detalhe. Mas a gente se afasta rápido de instantes mágicos como esse. E pela vida afora nos perdemos quanto ao sentido da felicidade.
Já fui feliz ministrando aulas em condições totalmente inóspitas, e estagiando numa universidade no Japão. Já atravessei o Rio São Francisco, o Atlântico e até o Pacífico, como retirante e como turista e em ambos fui feliz do mesmo modo. Ambos envolviam expectativas e responsabilidades diferentes.
Acredito que a felicidade more em dois principais lugares: primeiro, no reconhecimento do quanto já somos felizes. Depois, no sonho. Na expectativa de novas realizações. Se você acha que já tem tanto, mas tanto, inclusive como ser humano, que não precise mais sonhar, é melhor se beliscar para ver se ainda está vivo.
Por outro lado, quem se diz infeliz, deveria antes fazer um estágio, mas também pode ser uma visita a um asilo, orfanato ou hospital. Lá, a gente vê muita coisa, principalmente a nossa fugacidade. Quiçá, enxergue a própria felicidade. Sei o que é isso. Numa determinada época o meu trabalho era estudar num hospital. Penso que depois disso eu passei a entender melhor o meu pai. Ele foi funcionário de um grande hospital, não me pergunte por quantos anos. Aposentou-se lá. Nunca conheci tranco que o derrubasse. Não importava o tamanho do abismo, da molecagem ou mesmo da falsidade. Era como se o próprio mundo fosse muito pequeno. E é. Ele deve ter aprendido muito por lá. Deve ser por isso que eu nunca vi alguém tão justamente empossado de tanta felicidade.
Felicidade, não sei se é genético ou não. Pode ser uma questão de entendimento, embora, posto que sentimento, não seja racional. Seria a felicidade uma questão de decisão?
Da felicidade eu não sei o segredo e só posso falar dela nesses termos.
Felicidades!
Cissa de Oliveira
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Há sempre um copo de mar?
Sim, "Há sempre um copo de mar para um homem navegar". É isso o que mostra a 29a. Bienal de São Paulo Obras Selecionadas (exposição até 28.08.2011 - SESC Campinas).
Obra de Carlos Vergara (1941, Rio de Janeiro). O autor vive e trabalha no Rio de Janeiro. "Cacique na Central". Fotografia em 3D lenticular - 100 X100 cm. Coleção do artista. Da série: Cacique de Ramos(2010).
Obra de Cinthia Marcelle (1974, Belo Horizonte). A autora vive e trabalha em Belo Horizonte. "Sobre este mesmo mundo". Pó de giz, quadro negro, apagador. 120 X 840 X 8 cm.
Obra de Hélio Oiticica. (1937-1980, Rio de Janeiro). "Ninhos" - Madeira, juta,colchões, lâmpadas. 360 X 640 X 548 cm. Coleção de Claudio Oiticica.
... e já que é tarde, é por aqui que eu vou ficando... Boa noite!
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