Cissa de Oliveira
É difícil acreditar que Carlos Drummond de Andrade tenha sido expulso da escola sob o pretexto de “insubordinação mental”. Pois isso aconteceu. Insubordinação mental... Seria isto alguma falta de sinônimo para o comportamento de um jovem em fase escolar? Talvez Drummond tenha feito referência a esse lamentável engano quando escreveu: “ … e de tudo fica um pouco. / Oh, abre os vidros de loção/ e abafa / o insuportável mau cheiro da memória...”.
Drummond colaborou com diversos espaços literários, notadamente para o Jornal do Brasil, onde permaneceu por 64 anos, e foi, a seu tempo, um poeta influente na nossa literatura. Dono de extensa obra literária, viu seu poema “No meio do caminho” (1928) se transformr em escândalo literário. Aparentemente o autor não se abateu, e passados trinta e nove, quarenta anos, publicou "Uma pedra no meio do caminho - Biografia de um poema", que nada mais era do que uma resposta, se é que se pode chamar assim, um apanhado de críticas e matérias resultantes do seu poema escândalo ao longo dos anos.
É inegável que poemas modernistas eram criticados, ridicularizados, renegados enquanto literatura, mas o tempo, senhor de todas as engrenagens, mostrou que o mais completo modernista, havia nascido para brilhar. E mais, ao escrever que “tinha” uma pedra no meio do caminho – será que a pedra não era ele mesmo, no sapato dos conservadores? - é... porque tinha uma pedra e pronto.
Quem dera, os insubordinados das escolas de agora soubessem ler, quer dizer, ler de verdade. Poetas em potencial? Nesse caso é esperar, afinal, a história e também a vida têm mostrado que não se deve ter desesperanças. Quem garante que não há ao menos um Drummond querendo emergir no meio desse celeiro de insubordinação em que se transformou a Educacão no Brasil?
E se assim é, cabe citar mais uma de Drummond: “Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida”.
Sim, e essa verdade está "estampada" a seguir, com a beleza intrincada nas leituras do poema escândalo, em diversos idiomas. Ta bom assim?
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental".
Cissa de Oliveira
quinta-feira, 23 de junho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
E já que a época é de quadrilha
... essa é do Grupo de Xaxado Pisada do Sertão (Paraíba)
A origem do xaxado é ligada ao universo dos cangaceiros. Segundo Câmara Cascudo (dicionário de folclore brasileiro), a própria palavra xa-xa-do é uma onomatopéia do xá-xá-xá produzido pelas alpercatas dos cangaceiros arrastadas no chão. Um dos elementos que deram origem ao xaxado foi o parraxaxá, canto utilizado pelos cangaceiros, que desafiavam os policiais militares.
"... eu não respeito poliça,
soldado nunca foi gente,
espero morrer de velho
dando carreira em tenente..."
A letra do xaxado é caracteristicamente agressiva, contundente e satírica. Um xaxado lírico é artificialidade irresponsável. A música é simples e contagiante como toda melodia feita para a memorização inconsciente, constando quadra e refrão repetidos em uníssono pelo bando.
A dança do xaxado é feita em fila indiana, em círculo, com os pés executando movimentos laterais, arrastando as alpercatas no chão e fazendo coreografias com os fuzis. O xaxado surgiu na primeira metade do século XX, na caatinga do alto sertão pernambucano. Inicialmente no xaxado só participavam homens, e a participação de mulheres se deu por meio da presença de Maria Bonita e outras mulheres no Bando de Lampião. O xaxado atingiu grande popularidade nas décadas de 40 e 50, por meio do rádio e de cantores como Luiz Gonzaga e Marinês.
Informações de acordo com o TCC de Humberto Colácio Carneiro (graduação em música/violão), onde o autor analisa a presença de gêneros da música nordestina na obra para violão solo de Paulo Bellinati.
A origem do xaxado é ligada ao universo dos cangaceiros. Segundo Câmara Cascudo (dicionário de folclore brasileiro), a própria palavra xa-xa-do é uma onomatopéia do xá-xá-xá produzido pelas alpercatas dos cangaceiros arrastadas no chão. Um dos elementos que deram origem ao xaxado foi o parraxaxá, canto utilizado pelos cangaceiros, que desafiavam os policiais militares.
"... eu não respeito poliça,
soldado nunca foi gente,
espero morrer de velho
dando carreira em tenente..."
A letra do xaxado é caracteristicamente agressiva, contundente e satírica. Um xaxado lírico é artificialidade irresponsável. A música é simples e contagiante como toda melodia feita para a memorização inconsciente, constando quadra e refrão repetidos em uníssono pelo bando.
A dança do xaxado é feita em fila indiana, em círculo, com os pés executando movimentos laterais, arrastando as alpercatas no chão e fazendo coreografias com os fuzis. O xaxado surgiu na primeira metade do século XX, na caatinga do alto sertão pernambucano. Inicialmente no xaxado só participavam homens, e a participação de mulheres se deu por meio da presença de Maria Bonita e outras mulheres no Bando de Lampião. O xaxado atingiu grande popularidade nas décadas de 40 e 50, por meio do rádio e de cantores como Luiz Gonzaga e Marinês.
Informações de acordo com o TCC de Humberto Colácio Carneiro (graduação em música/violão), onde o autor analisa a presença de gêneros da música nordestina na obra para violão solo de Paulo Bellinati.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Na cauda da mula-sem-cabeça
Claudia Villela de Andrade
O colégio, onde eu estudava, tinha um enorme corredor lustrado de vermelho.
Agora o vejo pequeno. O tamanho das coisas se apresenta conforme o nosso próprio tamanho. Aquele corredor do medo, hoje não é nada. Apenas repousa no canto da minha cabeça curtida já com esse tipo de trauma.
Quando pequena, ele era importantíssimo. Ali, eu ficava em pé de castigo, esperando a diretora para a bronca final. A maioria das vezes, sem justa causa. Ele, então, se tornava o objeto da minha tortura, porque nunca ninguém era tão injustiçada quanto uma criança levada.
Ali, de pé, minhas mãos esfregavam-se uma na outra numa eterna aflição. As idéias e os pensamentos tinham que ser rápidos nas desculpas esfarrapadas.
Quando a marcação do passo de salto alto se iniciava no final do corredor, o suor começava a escorrer e o arrepio da barriga era inevitável. Fechava os olhos, respirava fundo, engolia saliva até a boca secar de vez. E, então, ele parava na minha frente e o carrasco descarregava seu chicote de palavras moralistas, sem amor. A cada chibatada, apertava a língua para não ser mal educada e piorar minha situação.Se o aperto dos lábios era assim, o da alma era pior. Fogo e sangue encurralados no cuspe da infância.
Diacho de corredor do inferno! Ouvia o capeta rindo de mim. Era o corredor da morte. O que me carregava no lombo da mula-sem-cabeça e em cuja cauda havia uma enorme Nossa Senhora do Sagrado Coração de Maria. Será que ela me ouvia?
O pior ainda não era isso. O terrível era quando os passos eram largos, barulhentos, rápidos e ríspidos. Os passos da minha tia que também era freira no colégio e que muitas vezes passava por ali. Eram dois chicotes descarregados de uma vez só, o da mestra e o da tia, sendo que o desta última estalava também um beliscão (tudo entre os dentes).
Assim era o encontro da minha alma com a máquina que moía a minha carne, pois dali ela saía para o telefone e, em casa, o couro cantava de novo.
Às vezes acho que, à noite quando durmo, minh’alma vagueia por esses corredores em que vivi. Sempre passo novamente por um mesmo lugar, agora com mais serenidade e maturidade para entender os quadros pendurados nas paredes e as pegadas deixadas no chão. Sinto, então, vontade de rir de situações vividas, de frases ditas ou pensadas, de pessoas a quem a gente esquece e lembra só na hora certa da memória.
Corredores são de mão dupla. Vão e voltam. Como a gente.
Este conto faz parte do livro "Prosas do Ninho" (Ed. muiraquitã, 2008), vencedor do Prêmios Literários Cidade de Manaus, edição 2007, na categoria Livro de Memórias.
Cláudia Helena Caldas Villela de Andrade é carioca, nascida em outubro de 1956, professora, escritora e poeta. Recebeu vários prêmios literários, destacando-se o 70º lugar pela Academia Brasileira de Letras co Concurso de redação para Professores de 2001, entre 6032 textos inscritos, fazendo parte da coletânea: Devemos ver com olhos livres (frase de Oswald de Andrade). Fundou o Grupo Virtual Pax Poesis encantada, e publicou dois e-books na internet, um deles de literatura infantil Brincadeira de Gente Grande. Organizou e participou da antologia poética do grupo DiVersos (Ed Scortecci, 2002), e da antologia de prosas Com licença da palavra (Ed Scortecci, 2003). Publicou Prosas do Ninho (Manaus, d Muiraquitã, 2008), vencedor do II Prêmios Cidade de Manaus, edição 2007, na categoria “Livro de Memórias”.
Além disso, Claudinha é uma grande amiga; e por mais que ainda não nos conheçamos pessoalmente, depois de mais de dez anos convivendo no grupo Pax Poesis Encantada, uma família literária, é como se nos víssemos desde sempre.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Dois Poemas de Ana Suzuki
Serenidade
Ana Suzuki
Virei água morna,
que se recusa a ferver
e tampouco a esfriar.
E quero manter-me assim,
sem arrepios de gelo
nem tremores de fervura.
Virei rio de planície,
sem securas na vazante
ou desatinos na enchente.
Já não corro, só deslizo.
Entre lírios e serpentes,
eu deslizo.
In Bodas de Coral
© Ana Suzuki
Campinas (SP) – Brasil
Você me dói
Você me dói
Não sei em que parte do meu subconsciente,
em que sala, caverna ou porão,
você me dói.
Não sei se por fora,
na pele que treme,
se por dentro,
nas vísceras que sustentam,
se lá longe,
nos ossos do nosso futuro...
Em alguma parte do meu ser
e do seu
em algum lugar do céu
ou do inferno,
do macro ou do microcosmo,
em algum lugar feliz e desesperado,
que não sei onde,
você me dói.
Ana Suzuki
Ana por ela mesma:
Resido em Campinas, no estado de São Paulo e pertenço, com muita honra, à Academia Campinense de Letras. Sou brasileira, sem um pingo de sangue japonês, mas casada, desde 1972, com Tadao Suzuki, de Fukushima-Ken, Japão; e é daí que vem meu nome de escritora. Publiquei, ao todo, dezesseis livros impressos; romances e infanto-juvenis, todos eles patrocinados por grandes editoras. Todavia, se antigamente elas levavam um ano para avaliar a obra e outro tanto para publicar, imagino que esse tempo se tenha dilatado muito, pois, hoje em dia, recebem centenas e centenas de originais por mês. Há dez anos sou fascinada pela internet, onde tenho cerca de trinta e-books publicados. Habituei-me à rapidez e foi isso o que me ofereceu a Editora Baraúna, com seus preços módicos e publicação sob demanda, isto é, livros impressos em qualquer quantidade, de acordo com a procura, sem risco de encalhe ou edição esgotada. Espero que o leitor fique tão contente como estou eu.
Ana Suzuki e Cissa, num evento na Academia Campinense de Letras.
Ana Suzuki
Virei água morna,
que se recusa a ferver
e tampouco a esfriar.
E quero manter-me assim,
sem arrepios de gelo
nem tremores de fervura.
Virei rio de planície,
sem securas na vazante
ou desatinos na enchente.
Já não corro, só deslizo.
Entre lírios e serpentes,
eu deslizo.
In Bodas de Coral
© Ana Suzuki
Campinas (SP) – Brasil
Você me dói
Você me dói
Não sei em que parte do meu subconsciente,
em que sala, caverna ou porão,
você me dói.
Não sei se por fora,
na pele que treme,
se por dentro,
nas vísceras que sustentam,
se lá longe,
nos ossos do nosso futuro...
Em alguma parte do meu ser
e do seu
em algum lugar do céu
ou do inferno,
do macro ou do microcosmo,
em algum lugar feliz e desesperado,
que não sei onde,
você me dói.
Ana Suzuki
Ana por ela mesma:
Resido em Campinas, no estado de São Paulo e pertenço, com muita honra, à Academia Campinense de Letras. Sou brasileira, sem um pingo de sangue japonês, mas casada, desde 1972, com Tadao Suzuki, de Fukushima-Ken, Japão; e é daí que vem meu nome de escritora. Publiquei, ao todo, dezesseis livros impressos; romances e infanto-juvenis, todos eles patrocinados por grandes editoras. Todavia, se antigamente elas levavam um ano para avaliar a obra e outro tanto para publicar, imagino que esse tempo se tenha dilatado muito, pois, hoje em dia, recebem centenas e centenas de originais por mês. Há dez anos sou fascinada pela internet, onde tenho cerca de trinta e-books publicados. Habituei-me à rapidez e foi isso o que me ofereceu a Editora Baraúna, com seus preços módicos e publicação sob demanda, isto é, livros impressos em qualquer quantidade, de acordo com a procura, sem risco de encalhe ou edição esgotada. Espero que o leitor fique tão contente como estou eu.
Ana Suzuki e Cissa, num evento na Academia Campinense de Letras.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Prêmios Literários Cidade de Manaus 2011
Ao todo, são 20 categorias, sendo 14 em nível nacional e outras seis para autores residentes em Manaus há pelo menos cinco anos.
As inscrições vão até o dia 20 de junho.
Podem concorrer aos prêmios nacionais os livros inéditos nas categorias romance ou novela, contos, poesia, crônicas, teatro adulto, teatro infantil, memória, jornalismo literário, literatura infantil, ensaio socioeconômico ou histórico, além de ensaios sobre tradições populares (folclore), literatura e cinema. Já os prêmios regionais serão distribuídos ao melhor romance ou novela, conto, livro de poesia ou memória, literatura infantil e ensaio sobre tradições populares. A premiação é de R$ 5 mil para os vencedores da versão nacional e R$ 3 mil para os ganhadores da versão regional.
O concurso Prêmios Literários Cidade de Manaus foi lançado pela primeira vez em 2006 e, desde então, 55 obras foram premiadas. Devido a falta de procura, as categorias de ensaio de dança e de artes plásticas foram excluídas do concurso e houve a necessidade de duplicar outras para aumentar o incentivo aos autores locais.
As inscrições devem ser feitas até as 17h do dia 20 de junho, na sede do Concultura, na Avenida André Araújo, 2767, no Aleixo, zona centro-sul. Os trabalhos devem ser entregues em três vias digitadas e encadernadas em formato A4, com impressão apenas em uma das faces do papel e, no mínimo, 50 páginas.
Os candidatos também devem anexar um envelope lacrado contendo uma folha de identificação do trabalho com nome, bibliografia, fotografia do autor, além de dados de contato e documentação.
Os trabalhos podem ser enviados pelo correio, até a data limite da inscrição. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone do conselho: (92) 3236-9387.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
James Brown - I Feel Good (From "Legends of Rock 'n' Roll" DVD)
O Apelo de James Brown - Short Story para Cissa de Oliveira
José António Gonçalves
O despertador era dotado de um rádio. O seu toque correspondia ao abrir da estação escolhida. Seis da manhã, indicava o relógio. Ainda ensonada estremeceu com o som que, de repente, tomou posse da casa: era James Brown a gritar «I Feel Good». Esfregou os olhos e esticou os dedos dos pés. Uma onda de electricidade tomou-lhe conta do corpo. O lençol parecia-lhe uma prisão, manietando-lhe os movimentos. Saltou da cama para o tapete num ápice e deixou-se levar pelo ritmo, um funky dos anos sessenta que apontava para as nuvens, mas como ali só tinha um tecto creme, enquanto balançava os braços e as pernas, com o tronco em rotação proporcionada, foi lá mesmo que fixou os olhos. Não sabia, inexplicavelmente, se era o quarto que girava à sua volta, ou se era a vontade de dançar que a conduzia nos passos. Apesar de ter muita coisa para fazer, começou pelo duche, ajeitou o pensamento, tomou o pequeno almoço e completou a sua «toilete», surpreendida pela velocidade com que completava as coisas que, antes, demoravam uma eternidade. «I feel good, so good...», continuava o James Brown a trovoar-lhe na cabeça, sentindo-se já desperta para enfrentar o dia. A vida agitava-se-lhe, involuntariamente, pela força da voz do cantor, pela sua junção aos saxofones, às guitarras, ao órgão «hammond», ou tão somente porque precisava de um pretexto para alterar o significado do seu «modus vivendi», a partir de um apelo. Relaxou então, sentou-se no sofá confortável da sala e, correspondendo ao desimporte que tomava conta de si, antes de voltar a adormecer, estendeu-se, agarrada a uma almofada, e desejou não raciocinar sobre o que quer que fosse, em ser apenas jovem, não ter a obrigação de cumprir com os seus deveres de bióloga, de mãe, de professora, de pesquisadora, de mulher, de pau para toda a obra. Até de bom grado abandonava a sua condição de poeta para entrar noutro universo irreal. Via-se correndo por uma praia de areia fina, branca, molhando os pés na água azul do mar, como se não tivesse um passado, um presente, um futuro. Um destino. O seu imaginário divagava pelo usufruto das paixões, pelo prazer e deleite na feitura de um suco de manga para refrescar o seu amor, retornando aos desejos simples de uma existência que se foi complicando só porque optara pela disciplina, pelo trabalho, pelo ram-ram da cidadania, pela recusa do sonho, pela sombra de um quotidiano interdito ao sol e à magia do romantismo. Voltou a acordar, desconhecendo a que contas andava, com o toque impertinente do telefone. Do outro lado perguntavam-lhe porque estava atrasada aos seus compromissos. «Estava doente, sentia-se mal?», inquiria alguém, do outro lado da linha. Ia - algo fantástico se entretinha com os seus neurónios - arranjar uma desculpa. Mas escutou-se dizendo a verdade, traduzindo os versos entoados por James Brown : «eu sinto-me bem, muito bem... Por isso hoje não posso estar aí!». E decidiu não sair de casa. Optara por ocupar-se com um caderninho cor-de-rosa, onde se habituara a agrupar uns poemas. E escreveu, sorrindo no usufruto da sua liberdade de pessoa resoluta e madura, na página em branco: «série JAG - 50».
José António Gonçalves
14.10.04
Publicado na Revista MARGEM - Câmara Municipaldo Funchal - Detartamento de Cultura - Ilha da Madeira - Organização: António Fournier - Maio 2008.
Parabéns JAG
O amigo José António Gonçalves faria aniversário hoje. Falecido em 29.03.2005, deixou um grande vazio, entre os seus e entre todos nós que o conhecíamos, mesmo que apenas através da poesia.
JAG, como era conhecido, foi escritor e grande divulgador na área do Jornalismo e da Literatura. Revelou-se aos 10 anos, e ao partir deixou quase duas dezenas de livros, fora as antologias. Jornalista profissional, presidente e co-fundador da Associação de Escritores da Madeira (AEM), fundou e dirigiu várias coleções literárias, além de eventos literários e musicais, especialmente no Funchal, Ilha da Madeira. No ano em que faleceu publicava diariamente, via internet "A Arte de Delfos" que veio a substituir a “A Poesia dos Calendários” onde divulgava escritores de diversas épocas. O importante é que fossem bons, dizia. Com isso é possível de se imaginar a minha alegria ao receber o texto acima. Uma grande homenagem, digna de se partilhar.
É a Rosa...
"... e se eu passar o dia dos namorados sem namorado?
Eu também não passo o dia do índio com um índio,
nem o dia da árvore com uma árvore.
Muito menos o dia de finados com um defunto!..."
Rosa Pena
Rosa Pena, escritora do Rio de Janeiro. Amiga e companheira desde que passei a participar do grupo Pax Poesis Encantada, pela internet. Já partilhamos publicações, prefácios, bienais e muito mais. Rosa é assim, diz o que pensa, e escreve muito bem! Além de antologias, publicou PreTextos (2004), Ui! (2004) e Tarja Branca (2010).
Eu também não passo o dia do índio com um índio,
nem o dia da árvore com uma árvore.
Muito menos o dia de finados com um defunto!..."
Rosa Pena
Rosa Pena, escritora do Rio de Janeiro. Amiga e companheira desde que passei a participar do grupo Pax Poesis Encantada, pela internet. Já partilhamos publicações, prefácios, bienais e muito mais. Rosa é assim, diz o que pensa, e escreve muito bem! Além de antologias, publicou PreTextos (2004), Ui! (2004) e Tarja Branca (2010).
domingo, 12 de junho de 2011
Nando Reis - Sou Dela
Nando Reis, em homenagem ao "Dia dos Namorados"
... Dizer que não vivo sem ele,
bobagem,
no amor somos um só.
Ele é meu e eu sou dele
como a lua é dos poetas...
Cissa de Oliveira
do meu poema "Ele" in Apenas Poesia
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
Thiago de Mello
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 1926) é o nome literário de Amadeu Thiago de Mello. No Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Preso durante a ditadura, exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e companheiro por toda a vida. Um traduziu a obra do outro e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo. Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta amazonense chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana em artigos de plástica formal. Seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 1926) é o nome literário de Amadeu Thiago de Mello. No Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Preso durante a ditadura, exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e companheiro por toda a vida. Um traduziu a obra do outro e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo. Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta amazonense chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana em artigos de plástica formal. Seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Essa eu queria ter escrito
Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 5 de junho de 2011
Uma dupla muito interessante
Cissa de Oliveira
A primeira vez que eu ouvi a Maria Gadú foi num programa de televisão. Ali, uma cantora dona de um tipo de voz que dispensa todos os instrumentos. Santo Deus dos ouvintes já pouco crentes, o que era aquilo?
Há pouco eu soube da parceria dela com o Caetano Veloso, e isso me alegrou profundamente. O Caetano merece. Vejam que eu nem disse “a Maria Gadú merece”. É que ele já provou que a que veio faz tempo. Artista e pessoa extradinária, encontrará em Maria Gadú mais do que uma companheira na música; ela será a água renovadora da poesia dele. Fôlego pra isso e muito mais a moça tem. A diferença de idade ou de gerações não quer dizer nada, tanto porque ela compõe desde os 10 anos, quanto porque é dona de uma maturidade que não dá para esconder. O público tem instinto para essas coisas, e pelo jeito adorou, haja vista as manifestações de carinho que a dupla tem recebido.
Recentemente o Caetano disse "…da primeira vez que a vi, ela parecia um moleque de favela 'movie'; um garotinho com voz de princesa...”. Pois é, dentre o joio há muito trigo; por isso de vez em quando somos brindados com o surgimento de artistas da maior qualidade. Artistas que não precisam ser vendidos, promovidos, enlatados, engarrafados, sei lá que diabo a quatro, apenas para vender, vender.
Caetano Veloso e Maria Gadú, uma dupla muito interessante. Nela, ambos saem ganhando, mas quem ganha mesmo, no final, somos nós, apreciadores da boa música brasileira, muitos já saudosos de uma Alegria, alegria que, há tempos, alcançávamos só pelo retrovisor.
A primeira vez que eu ouvi a Maria Gadú foi num programa de televisão. Ali, uma cantora dona de um tipo de voz que dispensa todos os instrumentos. Santo Deus dos ouvintes já pouco crentes, o que era aquilo?
Há pouco eu soube da parceria dela com o Caetano Veloso, e isso me alegrou profundamente. O Caetano merece. Vejam que eu nem disse “a Maria Gadú merece”. É que ele já provou que a que veio faz tempo. Artista e pessoa extradinária, encontrará em Maria Gadú mais do que uma companheira na música; ela será a água renovadora da poesia dele. Fôlego pra isso e muito mais a moça tem. A diferença de idade ou de gerações não quer dizer nada, tanto porque ela compõe desde os 10 anos, quanto porque é dona de uma maturidade que não dá para esconder. O público tem instinto para essas coisas, e pelo jeito adorou, haja vista as manifestações de carinho que a dupla tem recebido.
Recentemente o Caetano disse "…da primeira vez que a vi, ela parecia um moleque de favela 'movie'; um garotinho com voz de princesa...”. Pois é, dentre o joio há muito trigo; por isso de vez em quando somos brindados com o surgimento de artistas da maior qualidade. Artistas que não precisam ser vendidos, promovidos, enlatados, engarrafados, sei lá que diabo a quatro, apenas para vender, vender.
Caetano Veloso e Maria Gadú, uma dupla muito interessante. Nela, ambos saem ganhando, mas quem ganha mesmo, no final, somos nós, apreciadores da boa música brasileira, muitos já saudosos de uma Alegria, alegria que, há tempos, alcançávamos só pelo retrovisor.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Campinas, berço de fraudes
Nassim pode?
Cissa de Oliveira
Quanto mais eu leio sobre o escândalo da Prefeitura de Campinas, mais surpresa eu fico. Infelizmente temos presenciado cada vez mais a nossa política se transformar em caso de polícia, ou seria de guerra? Guerra do ganha-perde. Eles ganham, o povo perde. Já dizia Bertold Brecht, a guerra destrói os fracos; mas a paz faz o mesmo. Campinas parecia em paz. E agora, onde o equilíbrio?
A primeira dama de Campinas, Rosely Nassim Jorge Santos, foi acusada de ser a chefe do “esquema”, e aí é que eu comprovo o sentido da segunda parte da frase de Brecht. Para se livrar da prisão a primeira dama “saiu na frente” e conseguiu um habeas corpus. É sabido que essa manobra a livrou, juntamente com o prefeito, de ser presa com outros “operadores” suspeitos de articularem para atapalhar ações do Grupo de Combate Especial ao Crime Organizado (Gaeco).
A Sanasa de Campinas foi apontada pela promotoria como berço de fraudes disseminadas por todo o país. Isso, mais do que escandaloso, é triste, ainda mais no momento da descoberta. No ano passado teriam fraudado licitações de 11 prefeituras, e no governo de Tocantins. Passadas as prisões, a primeira dama reapareceu na cena, apresentando-se ao Gaeco. Teoricamente estaria colaborando com as investigações, muito embora tenha permanecido em silêncio diante de 41 questionamentos.
A primeira dama de Campinas: siêncio diante de 41 questionamentos.
Tivesse essa primeira dama de Campinas lido o poema “Os estatutos do Homem”*, saberia que no seu Artigo V está descrito: “... nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio/ nem a armadura de palavras./ O homem se sentará à mesa / com seu olhar limpo / porque a verdade passará a ser servida / antes da sobremesa...”. E assim, como nomear o que aconteceu? Dissimulação, encenação, cinismo, abuso de poder? E mais, Nassim pode? Seja lá o que for, nessa mesma ocasião a primeira dama pediu exoneração.
O prefeito imediatamente classificou o pedido de exoneração da mulher como uma atitude de desapego. A essa altura resta perguntar, como é que a gente ri, num texto? Mas tem que ser riso do histérico, que essa coisa toda tomou contornos de loucura, ou seria de circo? As cadeiras estão empoeiradas. Há crostas e crostas de poeira, poeira da grossa, Dr. Hélio, grudenta, dessas onde se grudam germes de todos os tipos e poder de malefício. O risco de infecção generalizada já foi detectado, e você, prefeito, se mostrou uma decepção para todos aqueles que o elegeram.
Prefeito, nassim num podia, e você bem sabia...
Cissa de Oliveira
*Os Estatutos do Homem. Um poema de Thiago de Mello.
Cissa de Oliveira
Quanto mais eu leio sobre o escândalo da Prefeitura de Campinas, mais surpresa eu fico. Infelizmente temos presenciado cada vez mais a nossa política se transformar em caso de polícia, ou seria de guerra? Guerra do ganha-perde. Eles ganham, o povo perde. Já dizia Bertold Brecht, a guerra destrói os fracos; mas a paz faz o mesmo. Campinas parecia em paz. E agora, onde o equilíbrio?
A primeira dama de Campinas, Rosely Nassim Jorge Santos, foi acusada de ser a chefe do “esquema”, e aí é que eu comprovo o sentido da segunda parte da frase de Brecht. Para se livrar da prisão a primeira dama “saiu na frente” e conseguiu um habeas corpus. É sabido que essa manobra a livrou, juntamente com o prefeito, de ser presa com outros “operadores” suspeitos de articularem para atapalhar ações do Grupo de Combate Especial ao Crime Organizado (Gaeco).
A Sanasa de Campinas foi apontada pela promotoria como berço de fraudes disseminadas por todo o país. Isso, mais do que escandaloso, é triste, ainda mais no momento da descoberta. No ano passado teriam fraudado licitações de 11 prefeituras, e no governo de Tocantins. Passadas as prisões, a primeira dama reapareceu na cena, apresentando-se ao Gaeco. Teoricamente estaria colaborando com as investigações, muito embora tenha permanecido em silêncio diante de 41 questionamentos.
A primeira dama de Campinas: siêncio diante de 41 questionamentos.
Tivesse essa primeira dama de Campinas lido o poema “Os estatutos do Homem”*, saberia que no seu Artigo V está descrito: “... nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio/ nem a armadura de palavras./ O homem se sentará à mesa / com seu olhar limpo / porque a verdade passará a ser servida / antes da sobremesa...”. E assim, como nomear o que aconteceu? Dissimulação, encenação, cinismo, abuso de poder? E mais, Nassim pode? Seja lá o que for, nessa mesma ocasião a primeira dama pediu exoneração.
O prefeito imediatamente classificou o pedido de exoneração da mulher como uma atitude de desapego. A essa altura resta perguntar, como é que a gente ri, num texto? Mas tem que ser riso do histérico, que essa coisa toda tomou contornos de loucura, ou seria de circo? As cadeiras estão empoeiradas. Há crostas e crostas de poeira, poeira da grossa, Dr. Hélio, grudenta, dessas onde se grudam germes de todos os tipos e poder de malefício. O risco de infecção generalizada já foi detectado, e você, prefeito, se mostrou uma decepção para todos aqueles que o elegeram.
Prefeito, nassim num podia, e você bem sabia...
Cissa de Oliveira
*Os Estatutos do Homem. Um poema de Thiago de Mello.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Romancistas de Campinas
Após uma pequena cirurgia,ando em franca recuperação. Aproveitei para desempoeirar umas coisas, arrumar outras, e até mesmo reencontrar algumas muito importantes. Assim, publico aqui, escritos a mim dedicados por amigos queridos; é uma forma de agradecer novamente, registrar e até mesmo guardar.
Abaixo, um comentário do escritor campineiro Rubem Costa, da Academia Campinense de Letras, publicado no jornal Correio Popular, em 2009.
Cissa de Oliveira
Romancistas de Campinas
Rubem Costa
costa.rubem@uol.com.br
Cissa de Oliveira é pseudônimo literário da bióloga Maria Sileuda Moreira de Oliveira, doutora em genética e biologia molecular que, de quando em quando, escapa da vereda pragmática da ciência para descortinar no abstrato de seu mundo encantado a paisagem onírica da vida.
Para contemplar a essência desse universo de sonhos, basta ler o programa de livros que tem atualmente em preparo: A Música do Mar, Acordando as Palavras, Versos que eu Pensei e Se Há Chuva ou se Faz Sol. Todavia, não é dos títulos arregimentados que pretendo me ocupar hoje, mas tão somente da publicação recente que me chega às mãos: O Cavalinho Azul.
Um livro que, a começar da apresentação gráfica, traz em si mesmo enraizada uma mensagem dialética, a força da contradição entre o material e o espiritual. Eis que, lançado em formato eletrônico, dispondo apenas de quarenta e uma páginas, aparentemente é um livro de pequeno porte. Em número de folhas, magrinho. E aí se consuma o conflito, porque longe de ser um mero livrinho, revela nas reduzidas folhas uma grande obra que, podendo ser leitura para criança, se destina à reflexão do homem, como a própria autora põe em relevo na dedicatória — “Para todas as crianças e também para os adultos que não perderam a capacidade de sonhar”.
Como se vê, um desiderato que se inscreve na mesma linha de O Pequeno Príncipe, mas, todavia não o imita, não repete, nem induz a confusão com a saga de Saint-Exupery. Tem rota própria. Nele se projeta o ser multifacetário em sua manifestação onírica, buscando retirar do vazio o sentido vivencial do existir. Uma busca que faz lembrar a máxima de Lavoisier que — acertando quando disse que da natureza nada se perde, tudo se transforma — errou ao afirmar que nada se cria. Cria-se, sim senhores, tira-se do nada porque há um momento em que a mente, parodiando o Gênesis, copia a Deus: cria o poeta na concepção do belo, criam os músicos e todos artistas quando buscam na realidade dos sonhos a essência do existir. Podem não plantar materialmente uma árvore, porém conseguem dela a percepção da eternidade e são capazes de traduzir pela captação do mistério — na luminosidade que o sol projeta e no claro e escuro que a lua abençoa — a beleza escondida que nossos olhos não enxergam e pela qual, nós outros, os botocudos, passamos indiferentes sem perceber a grandeza da concepção. Assim, diante do verbo criar é necessário ter em conta a semântica do termo. De origem latina, significa originariamente concretizar, tirar do nada. É a manifestação da essência em forma de existência. Só viceja na seara dos privilegiados que percebem, veem e escutam, tracejando imagens, combinando cores, sons e ideias para despertar uma realidade que, imperceptível ao comum dos homens, preexiste na consciência e se projeta para a eternidade.
Em Cavalinho Azul, Cissa de Oliveira, campeando no sonho, cria um símbolo, gesta uma metáfora de felicidade para traduzir na imagem das figuras o sentido humano da vida.
A par de O Cavalinho Azul, chega-me às mãos, também publicado no ano findo, o romance Maison Delliz, assinado por Carmen Pimentel. Livro de excelente produção gráfica, traz, já na contra capa revelada, a força expressiva da autora muito bem ressaltada no excelente sumário crítico subscrito por Regina Márcia Moura Tavares, que com sua reconhecida acuidade crítica penetra no âmago da obra assim expondo: — “A vida é engraçada, por vezes nos testa de maneira brutal, nos castiga impiedosamente, mas é linda”. Carmen Pimentel resume nesta frase o seu profundo, corajoso e ao mesmo tempo, complacente olhar sobre o existir humano. Um mundo de mudanças rápidas e imperativas não nos permite manter comportamentos regidos por valores de épocas anteriores, mas exige-nos recomeçar sempre. Com excelente caracterização psicológica dos personagens, perfeita adequação das falas aos tipos sociais, bom ritmo e certo suspense, ela constrói uma estória familiar que, com seus acertos e desacertos, poderia ser a de qualquer um de nós”.
Eis aí a definição vigorosa de uma obra destinada a ter plena aceitação como retrato de uma sociedade em ebulição em que se agitam anseios escondidos, emoções que explodem, desesperam, expungem velhos conceitos, criam novos valores e tornam normal o que antes era convencionalmente abominado. É uma radiografia atual da evolução que preside, desde milênios, o ciclo irrefreável da história do homem. Caminho da mudança. Bem que Cícero, há dois mil anos, desalentado ante a transformação de costumes que acometia Roma, já deblaterava no antigo senado: “O tempora, o mores”. Um desabafo, retrato do homem que, ao longo do tempo, atazanando os costumes, liberta o instinto de mudança, rompe as comportas da repressão, espraia-se na correnteza dos instintos e leva de roldão os velhos diques. Vale lembrar que Carmen Pimentel, como romancista, não é uma estreante. No seu currículo aparece também, publicado anos atrás, o Anjo de Mármore. Apenas, entre um e outro existe uma diferença de perquirição. Enquanto no primeiro, aparentemente um auto-retrato, persegue o ser em sua intimidade, no segundo, Maison Delliz, faz a radiografia das tendências de uma sociedade em mutação.
Rubem Costa é escritor e membro da Academia Campinense de Letras. E-mail: costa.rubem@uol.com.br
Correio Popular (Campinas)de 02.04.2009
Abaixo, um comentário do escritor campineiro Rubem Costa, da Academia Campinense de Letras, publicado no jornal Correio Popular, em 2009.
Cissa de Oliveira
Romancistas de Campinas
Rubem Costa
costa.rubem@uol.com.br
Cissa de Oliveira é pseudônimo literário da bióloga Maria Sileuda Moreira de Oliveira, doutora em genética e biologia molecular que, de quando em quando, escapa da vereda pragmática da ciência para descortinar no abstrato de seu mundo encantado a paisagem onírica da vida.
Para contemplar a essência desse universo de sonhos, basta ler o programa de livros que tem atualmente em preparo: A Música do Mar, Acordando as Palavras, Versos que eu Pensei e Se Há Chuva ou se Faz Sol. Todavia, não é dos títulos arregimentados que pretendo me ocupar hoje, mas tão somente da publicação recente que me chega às mãos: O Cavalinho Azul.
Um livro que, a começar da apresentação gráfica, traz em si mesmo enraizada uma mensagem dialética, a força da contradição entre o material e o espiritual. Eis que, lançado em formato eletrônico, dispondo apenas de quarenta e uma páginas, aparentemente é um livro de pequeno porte. Em número de folhas, magrinho. E aí se consuma o conflito, porque longe de ser um mero livrinho, revela nas reduzidas folhas uma grande obra que, podendo ser leitura para criança, se destina à reflexão do homem, como a própria autora põe em relevo na dedicatória — “Para todas as crianças e também para os adultos que não perderam a capacidade de sonhar”.
Como se vê, um desiderato que se inscreve na mesma linha de O Pequeno Príncipe, mas, todavia não o imita, não repete, nem induz a confusão com a saga de Saint-Exupery. Tem rota própria. Nele se projeta o ser multifacetário em sua manifestação onírica, buscando retirar do vazio o sentido vivencial do existir. Uma busca que faz lembrar a máxima de Lavoisier que — acertando quando disse que da natureza nada se perde, tudo se transforma — errou ao afirmar que nada se cria. Cria-se, sim senhores, tira-se do nada porque há um momento em que a mente, parodiando o Gênesis, copia a Deus: cria o poeta na concepção do belo, criam os músicos e todos artistas quando buscam na realidade dos sonhos a essência do existir. Podem não plantar materialmente uma árvore, porém conseguem dela a percepção da eternidade e são capazes de traduzir pela captação do mistério — na luminosidade que o sol projeta e no claro e escuro que a lua abençoa — a beleza escondida que nossos olhos não enxergam e pela qual, nós outros, os botocudos, passamos indiferentes sem perceber a grandeza da concepção. Assim, diante do verbo criar é necessário ter em conta a semântica do termo. De origem latina, significa originariamente concretizar, tirar do nada. É a manifestação da essência em forma de existência. Só viceja na seara dos privilegiados que percebem, veem e escutam, tracejando imagens, combinando cores, sons e ideias para despertar uma realidade que, imperceptível ao comum dos homens, preexiste na consciência e se projeta para a eternidade.
Em Cavalinho Azul, Cissa de Oliveira, campeando no sonho, cria um símbolo, gesta uma metáfora de felicidade para traduzir na imagem das figuras o sentido humano da vida.
A par de O Cavalinho Azul, chega-me às mãos, também publicado no ano findo, o romance Maison Delliz, assinado por Carmen Pimentel. Livro de excelente produção gráfica, traz, já na contra capa revelada, a força expressiva da autora muito bem ressaltada no excelente sumário crítico subscrito por Regina Márcia Moura Tavares, que com sua reconhecida acuidade crítica penetra no âmago da obra assim expondo: — “A vida é engraçada, por vezes nos testa de maneira brutal, nos castiga impiedosamente, mas é linda”. Carmen Pimentel resume nesta frase o seu profundo, corajoso e ao mesmo tempo, complacente olhar sobre o existir humano. Um mundo de mudanças rápidas e imperativas não nos permite manter comportamentos regidos por valores de épocas anteriores, mas exige-nos recomeçar sempre. Com excelente caracterização psicológica dos personagens, perfeita adequação das falas aos tipos sociais, bom ritmo e certo suspense, ela constrói uma estória familiar que, com seus acertos e desacertos, poderia ser a de qualquer um de nós”.
Eis aí a definição vigorosa de uma obra destinada a ter plena aceitação como retrato de uma sociedade em ebulição em que se agitam anseios escondidos, emoções que explodem, desesperam, expungem velhos conceitos, criam novos valores e tornam normal o que antes era convencionalmente abominado. É uma radiografia atual da evolução que preside, desde milênios, o ciclo irrefreável da história do homem. Caminho da mudança. Bem que Cícero, há dois mil anos, desalentado ante a transformação de costumes que acometia Roma, já deblaterava no antigo senado: “O tempora, o mores”. Um desabafo, retrato do homem que, ao longo do tempo, atazanando os costumes, liberta o instinto de mudança, rompe as comportas da repressão, espraia-se na correnteza dos instintos e leva de roldão os velhos diques. Vale lembrar que Carmen Pimentel, como romancista, não é uma estreante. No seu currículo aparece também, publicado anos atrás, o Anjo de Mármore. Apenas, entre um e outro existe uma diferença de perquirição. Enquanto no primeiro, aparentemente um auto-retrato, persegue o ser em sua intimidade, no segundo, Maison Delliz, faz a radiografia das tendências de uma sociedade em mutação.
Rubem Costa é escritor e membro da Academia Campinense de Letras. E-mail: costa.rubem@uol.com.br
Correio Popular (Campinas)de 02.04.2009
terça-feira, 31 de maio de 2011
Flagrante - Menção à prosa "Tempestade" de Cissa de Oliveira
Herculano Alencar
À sombra de um livro de poemas
dormem os olhos verdes da menina!
O mar revolve a areia, branca e fina,
enquanto uma gaivota bate penas...
Chapéu de palha -sombra pequenina-
proteje-lhe os sonhos de verão,
enquanto o vento morno varre o chão
e o sol bate-lhe às portas da retina.
À sombra da menina, a poesia
avulta-se em versos, rodopia...
e torna o belo muito mais perfeito.
E eu, que era um poeta de passagem,
me pus a rabiscar tão bela imagem
na tela imaginária de um soneto.
Herculano Alencar
Herculano Alencar é natural de Piripiri – Piauí, e vive em São Paulo desde 1979. É médico dermatologista (desde 1978) e escritor desde 1970. Herculano é membro de academias e faz parte de grupos de literatura como o Grupo Ateneu Poesias e o Grupo Pax Poesis. Autor de inúmeros poemas (a especialidade é o soneto) e participações em antologias.
Vejam ele aí no primeiro plano, todo compenetrado na Bienal do Livro de 2010- São Paulo, enquanto a Rosa Pena e eu parecemos fofocar um pouquinho.
Tempestade
Cissa de Oliveira
Sempre me ocorreu que dentre as definições que o ‘Aurélio’ traz sobre a palavra tempestade, nenhuma me agrada. Sejam aquelas relacionadas com as alterações desastrosas da natureza, ou as outras, relacionadas a perturbações e desordens mais pessoais.
É que pra mim, sinceramente, tempestade só mesmo as que acontecem num copo d’água, preferencialmente, aliás, num copo de suco, com muito gelo picado, no meio de uma tarde espichada, mas espichada com alguma preguiça, sabe como é, com um jeitinho que somente a orla marítima, lá em São Sebastião, é quem tem. No olhar, a leveza do azul do céu emendado com o das águas. No corpo, a sombra irregular de uma árvore esparramada, enquanto o vento conversa, animadamente, com as folhas dela. Se isso fosse recordação, seria bonito. Mais bonito é que sejam recortes de recordação misturados com imaginação.
Reclino a cadeira um pouco mais. Quase deitada, coloco sobre o rosto o chapéu de palha com vistoso laço de fita. A fita é vermelha, e o laço tenta se desfazer, enquanto as nuvens rascunham, a todo instante, uma nova configuração. Por entre os poros da palha trançadinha do chapéu, a paisagem vai se fragilizando.
Caleidoscópio de verão. Esboço de vigília. Das minhas mãos se desprende um livro de poemas, mas a rigor nada acontece, a não ser alguns minúsculos e brilhantes grãos de areia sobre a pele. Depois? Uma crônica, talvez, sem clausura nem brancura de papel, em meio a uma tempestade de sonhos, todos possíveis, assim, sob as pestanas semi-cerradas.
Cissa de Oliveira
À sombra de um livro de poemas
dormem os olhos verdes da menina!
O mar revolve a areia, branca e fina,
enquanto uma gaivota bate penas...
Chapéu de palha -sombra pequenina-
proteje-lhe os sonhos de verão,
enquanto o vento morno varre o chão
e o sol bate-lhe às portas da retina.
À sombra da menina, a poesia
avulta-se em versos, rodopia...
e torna o belo muito mais perfeito.
E eu, que era um poeta de passagem,
me pus a rabiscar tão bela imagem
na tela imaginária de um soneto.
Herculano Alencar
Herculano Alencar é natural de Piripiri – Piauí, e vive em São Paulo desde 1979. É médico dermatologista (desde 1978) e escritor desde 1970. Herculano é membro de academias e faz parte de grupos de literatura como o Grupo Ateneu Poesias e o Grupo Pax Poesis. Autor de inúmeros poemas (a especialidade é o soneto) e participações em antologias.
Vejam ele aí no primeiro plano, todo compenetrado na Bienal do Livro de 2010- São Paulo, enquanto a Rosa Pena e eu parecemos fofocar um pouquinho.
Tempestade
Cissa de Oliveira
Sempre me ocorreu que dentre as definições que o ‘Aurélio’ traz sobre a palavra tempestade, nenhuma me agrada. Sejam aquelas relacionadas com as alterações desastrosas da natureza, ou as outras, relacionadas a perturbações e desordens mais pessoais.
É que pra mim, sinceramente, tempestade só mesmo as que acontecem num copo d’água, preferencialmente, aliás, num copo de suco, com muito gelo picado, no meio de uma tarde espichada, mas espichada com alguma preguiça, sabe como é, com um jeitinho que somente a orla marítima, lá em São Sebastião, é quem tem. No olhar, a leveza do azul do céu emendado com o das águas. No corpo, a sombra irregular de uma árvore esparramada, enquanto o vento conversa, animadamente, com as folhas dela. Se isso fosse recordação, seria bonito. Mais bonito é que sejam recortes de recordação misturados com imaginação.
Reclino a cadeira um pouco mais. Quase deitada, coloco sobre o rosto o chapéu de palha com vistoso laço de fita. A fita é vermelha, e o laço tenta se desfazer, enquanto as nuvens rascunham, a todo instante, uma nova configuração. Por entre os poros da palha trançadinha do chapéu, a paisagem vai se fragilizando.
Caleidoscópio de verão. Esboço de vigília. Das minhas mãos se desprende um livro de poemas, mas a rigor nada acontece, a não ser alguns minúsculos e brilhantes grãos de areia sobre a pele. Depois? Uma crônica, talvez, sem clausura nem brancura de papel, em meio a uma tempestade de sonhos, todos possíveis, assim, sob as pestanas semi-cerradas.
Cissa de Oliveira
A seita do fim
Cristina Pires
Para a Cissa de Oliveira
Há coisas na vida, que pouco me preocupam. Se o meteorologista anunciou chuva, e o sol radiou, por exemplo. Para quê atardar-se em detalhes? O homem errou, e pronto. Afinal, o erro é da natureza... humana.
Mas há outras coisas, talvez insignificantes para uns, que me tiram o sono. A noite de quarta, passei-a em branco, andando de um lado para outro, transformando a minha sala numa fidedigna Sala dos Passos Perdidos, a ponto de cavar um fosso entre o princípio e o fim. E era aí que residia a insónica questão: no fosso entre o princípio e o fim. Se ao menos esse peso me fosse para as pálpebras... Mas não! Pesava-me nas entrevistas, martelava-me as origens, tolhia-me as bases. Era uma marginal, era o que era! Sem regra e sem lei.
Nas idas, ouvia a Cissa dizer-me que achava interessante o facto de alguém começar pelo final; nas vindas que lhe parecia prático mas bem difícil, porque o final é o tchan podendo num único verso, inclusive, negar tudo o que se acabou de ler!
Negar, negar, negar...
E o caso piorou! Veio o Machado, e diz-me, como quem não quer a coisa, com as suas várias histórias: "limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar...". Então, eu nego mas afirmo, finalizo para principiar, alvo o princípio. Em resumo, asserto-me!
Entre as minhas idas e vindas, já com o fosso pelos tornozelos e os ombros pelos joelhos, descaio diante de Jorge Luis e afundo as minhas andanças até à seita do Fénix, ao segredo dos seguidores do Fénix, aos sectários...
O rito constitui o Segredo, diz-me ele. Este transmite-se de geração em geração, mas o uso não quer que as mães o ensinem aos filhos, nem tão-pouco os sacerdotes; a iniciação no mistério é tarefa dos individuos mais reles. Um escravo, um leproso, um mendigo, passam por mistagogos.
Escrava morfética da esmola da noite; mestra dos mistérios, dos segredos...
O facto em si, é trivial. Não existem templos, nem orações, nem celebrações deste meu ritual. Mas, um quarto escuro, uma cave, ou umas ruínas, são-me, são-lhe, lugares propícios. Também não existem livros sagrados, onde figure, entre linhas obscuras, um significado decente. Também não há palavras que o definam, apesar de todas as palavras o aludirem. Tudo fica na clandestinidade leprosa. E o princípio pelo fim, ficará no fosso dos meus conceitos. Em mim, por exemplo, isso já é instintivo...
Cristina Pires
Cristina Pires é portuguesa, natural da margem esquerda do Tejo, e atualmente vive na margem esquerda do lago Léman, Genebra. Escreve pelo prazer de ver o tempo passar. Participou de antologias no Grupo Ateneu Poesias e publicou contos, crônicas e poemas em vários sites. Diz que "vive a pensar" que poderá retirar as palavras da solidão de uma morte lenta, e arrelia as lápides das palavras extintas, velhas e esfalfadas.
Para a Cissa de Oliveira
Há coisas na vida, que pouco me preocupam. Se o meteorologista anunciou chuva, e o sol radiou, por exemplo. Para quê atardar-se em detalhes? O homem errou, e pronto. Afinal, o erro é da natureza... humana.
Mas há outras coisas, talvez insignificantes para uns, que me tiram o sono. A noite de quarta, passei-a em branco, andando de um lado para outro, transformando a minha sala numa fidedigna Sala dos Passos Perdidos, a ponto de cavar um fosso entre o princípio e o fim. E era aí que residia a insónica questão: no fosso entre o princípio e o fim. Se ao menos esse peso me fosse para as pálpebras... Mas não! Pesava-me nas entrevistas, martelava-me as origens, tolhia-me as bases. Era uma marginal, era o que era! Sem regra e sem lei.
Nas idas, ouvia a Cissa dizer-me que achava interessante o facto de alguém começar pelo final; nas vindas que lhe parecia prático mas bem difícil, porque o final é o tchan podendo num único verso, inclusive, negar tudo o que se acabou de ler!
Negar, negar, negar...
E o caso piorou! Veio o Machado, e diz-me, como quem não quer a coisa, com as suas várias histórias: "limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar...". Então, eu nego mas afirmo, finalizo para principiar, alvo o princípio. Em resumo, asserto-me!
Entre as minhas idas e vindas, já com o fosso pelos tornozelos e os ombros pelos joelhos, descaio diante de Jorge Luis e afundo as minhas andanças até à seita do Fénix, ao segredo dos seguidores do Fénix, aos sectários...
O rito constitui o Segredo, diz-me ele. Este transmite-se de geração em geração, mas o uso não quer que as mães o ensinem aos filhos, nem tão-pouco os sacerdotes; a iniciação no mistério é tarefa dos individuos mais reles. Um escravo, um leproso, um mendigo, passam por mistagogos.
Escrava morfética da esmola da noite; mestra dos mistérios, dos segredos...
O facto em si, é trivial. Não existem templos, nem orações, nem celebrações deste meu ritual. Mas, um quarto escuro, uma cave, ou umas ruínas, são-me, são-lhe, lugares propícios. Também não existem livros sagrados, onde figure, entre linhas obscuras, um significado decente. Também não há palavras que o definam, apesar de todas as palavras o aludirem. Tudo fica na clandestinidade leprosa. E o princípio pelo fim, ficará no fosso dos meus conceitos. Em mim, por exemplo, isso já é instintivo...
Cristina Pires
Cristina Pires é portuguesa, natural da margem esquerda do Tejo, e atualmente vive na margem esquerda do lago Léman, Genebra. Escreve pelo prazer de ver o tempo passar. Participou de antologias no Grupo Ateneu Poesias e publicou contos, crônicas e poemas em vários sites. Diz que "vive a pensar" que poderá retirar as palavras da solidão de uma morte lenta, e arrelia as lápides das palavras extintas, velhas e esfalfadas.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Tudo se dissolve no ar
Cissa de Oliveira
Já faz um tempinho que as minhas palavras e pensamentos se dissolvem por aí, sem que eu os organize para publicação aqui no “Casa de Pano”. Pura falta de tempo, eu venho dizendo, essa desculpa nada original que costumamos reproduzir frente às mais variadas situações.
E “Casa de Pano”, por que Casa de Pano? Muitos já perguntaram. Eu vou contar. Em 2004, ao visitar a Bienal das Artes de São Paulo eu me deparei, literalmente, com uma casa de pano no meio do pavilhão. A casa, composta por dois cômodos, uma espécie de varanda, teto, chão, etc, possuía um diferencial: Versos pelas paredes. Lindo, não é? E foi considerando que não posso escrever versos pelas paredes da minha casa - ao menos não literalmente -, que na hora de nomear este blogue eu escolhi “Casa de Pano”.
E eu tive sim, TEMPO para publicar, até porque possuo textos inéditos. É verdade que eu gosto deles cada vez menos, saberá Jesus o porquê, eu não. Ou sei, pronto; e já que hoje é o dia de polir pequenas desculpas, eu gosto menos dos meus textos antigos porque em muitos deles “aquela” discussão já não é a minha.
Por sorte, entre uma inspiração nova e outra, vou publicando aqui outros autores, porque estes sim, sempre interessantes, quase em consonância com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “as palavras não nascem amarradas, elas saltam, se beijam, se dissolvem”.
Dizem que tudo se dissolve no ar. Não sei; sei apenas que toda palavra tem direito à sua caminha de silêncio.
Cissa de Oliveira
Já faz um tempinho que as minhas palavras e pensamentos se dissolvem por aí, sem que eu os organize para publicação aqui no “Casa de Pano”. Pura falta de tempo, eu venho dizendo, essa desculpa nada original que costumamos reproduzir frente às mais variadas situações.
E “Casa de Pano”, por que Casa de Pano? Muitos já perguntaram. Eu vou contar. Em 2004, ao visitar a Bienal das Artes de São Paulo eu me deparei, literalmente, com uma casa de pano no meio do pavilhão. A casa, composta por dois cômodos, uma espécie de varanda, teto, chão, etc, possuía um diferencial: Versos pelas paredes. Lindo, não é? E foi considerando que não posso escrever versos pelas paredes da minha casa - ao menos não literalmente -, que na hora de nomear este blogue eu escolhi “Casa de Pano”.
E eu tive sim, TEMPO para publicar, até porque possuo textos inéditos. É verdade que eu gosto deles cada vez menos, saberá Jesus o porquê, eu não. Ou sei, pronto; e já que hoje é o dia de polir pequenas desculpas, eu gosto menos dos meus textos antigos porque em muitos deles “aquela” discussão já não é a minha.
Por sorte, entre uma inspiração nova e outra, vou publicando aqui outros autores, porque estes sim, sempre interessantes, quase em consonância com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “as palavras não nascem amarradas, elas saltam, se beijam, se dissolvem”.
Dizem que tudo se dissolve no ar. Não sei; sei apenas que toda palavra tem direito à sua caminha de silêncio.
Cissa de Oliveira
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Pedro Salgueiro em entrevista
Esta entrevista foi concedida pelo autor, à Revista MUITO – Revista Semanal do Grupo “A Tarde”, através de Breno Bernardes.
Pedro Salgueiro (Tamboril, Ceará, 1964) é da geração que ficou conhecida como Geração 90, por conta da compilação homônima organizada por Nelson de Oliveira. Salgueiro tem editados os livros de contos O Peso do Morto (1997), O Espantalho (1996), Brincar Com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora, de crônicas. Vencedor do Concurso Guimarães Rosa, da Rádio France Internationale, e do Prêmio de Contos da Biblioteca Nacional/Instituto Nacional do Livro para obras em curso, dentre outros. Tem contos nas coletâneas Contos Cruéis, Geração 90: manuscritos de computador, Os Menores Contos Brasileiros do Século, Quartas Histórias e Todas as Guerras. Diz ele que, se essa tal Geração 90 tem algo em comum, é justamente a falta de um estilo ou temática em comum. De sua parte, prefere ambientar seus contos nas pequenas cidades.
É possível ensinar a escrever?
Ensinar a escrever, sim, claro, com técnica, boa gramática e um estudo apurado; agora, escrever com talento é bem mais difícil. Acredito muito que exista uma capacidade inata para apreender o mundo ao redor e transportá-lo para o papel em forma de arte; assim como acredito também que sem um esforço de elaboração, de suor, de tentativas várias, não se consiga desenvolver um texto de valor maior. Um jogador de futebol esforçado pode até ser mais eficiente que um craque relapso, mas um craque esforçado vale por mil apenas esforçados.
O que mais te atrai no conto?
O desafio de tentar dizer tudo o que se tem em mente com pouquíssimas palavras, de contar uma história ou sensação sem ter que matar (como bem dizia Clarice Lispector) com palavras as entrelinhas. Acho que o contista, por causa desse desafio, tende a ter uma técnica mais apurada, um senso de escolha mais contundente. Como escreveu o argentino Cortázar, o escritor de contos tem que ganhar a luta de boxe por nocaute (já o romancista pode muito bem se contentar em vencer por pontos), com um golpe certeiro.
Nunca tentou o romance, a poesia?
Como quase todo jovem comecei escrevendo poesia, uma poesia muito ruim, imitando a péssima poesia dos poetas marginais dos anos 1970. Com o tempo, e quase sem querer, fui, naturalmente, indo para a prosa curta. Não acredito que um autor escolha o gênero em que vai escrever melhor, acho que o gênero é quem escolhe o escritor. Tem pessoas que até pra dar um recado dão arrodeios, fazem associações em várias direções, traçam paralelos, acabam (se não tiverem muito talento) confundindo o interlocutor; estes serão os romancistas. Outros enfeitam tudo que falam, tem uma presença de espírito em dizer coisas banais; escreverão poesias com êxitos. Já o sujeito seco, lacônico, fatalmente se sentirão atraídos pelo conto. Na maioria das vezes em que escuto essa pergunta de quando irei escrever um romance, percebo um certo ranço de preconceito para com o contista (não é o seu caso, acredito), como se o romance fosse um passo além… Então, para desafiar o interlocutor, costumo afirmar que escreverei um romance quando não tiver mais capacidade de escrever um bom conto (claro que devolvo o mesmo preconceito, mas serve como vingança).
Minimalismo é escolha estética ou dogma?
É tendência inata, não escolhi escrever contos curtos com uma consciência teórica, sempre fui lacônico, calado, casmurro… Tudo o que é derramamento sempre me enfadou muito. Talvez por eu ser de uma região muito seca (o sertão dos Inhamuns, no Ceará) tenha adquirido uma secura interior inconsciente; na minha região as pessoas são lacônicas, falam as frases pela metade, nunca completam o raciocínio começado, têm medo de que a quentura seque a saliva de suas bocas. Claro que a escolha dos meus autores prediletos seria por esses parâmetros, da contenção, da secura; da tentativa de dizer o máximo com o mínimo de palavras. Sempre fui fanático por Machado de Assis, Juan Rulfo, Dalton Trevisan, Luis Vilela, Tchekov, Moreira Campos e outros mini(ani)malistas.
Qual o ponto em comum dos autores chamados Geração 90?
Apesar de ter participado da coletânea Geração 90: Manuscritos de Computador, organizada por Nélson de Oliveira, eu nunca consegui ver uma identidade comum entre os muitos autores, eu mesmo sempre me senti um peixe fora d’água dessa turma toda, pois ainda faço uns contos ambientados em cidades pequenas, quando a maioria é bem urbana… Talvez o que pareça mais comum nessa minha geração seja a falta de traços comuns entre seus membros (risos). Sinto-me mais próximo talvez (descontando o desnível, claro) de um José J. Veiga, de um Graciliano Ramos; também percebo alguns pontos de contatos dos meus pequenos contos com os que fazem hoje, por exemplo, Ronaldo Correia de Brito (também cearense) e o sergipano Antônio Carlos Viana.
O que foi marcante na literatura nos anos 00?
Acho muito cedo pra que se analise até mesmo a minha geração, que hoje é composta por tios grisalhos e barrigudinhos, quanto mais a essa safra maravilhosa de bons autores que pululam por aí em todos os estados; daqui a uns 20 anos talvez se vislumbre o pouco trigo perdido em meio a esse imenso matagal de joios. Mas nós precisaremos sempre de classificações, de amarras, de compartimentos estanques, de etiquetas… Muitas vezes um autor é bem mais próximo de outro que escreveu um século antes, outros estão completamente à frente de seu tempo (estes, muito poucos). Aqui mesmo no Ceará e outros estado do Nordeste vejo uma juventude muito afoita, muito aguerrida; mas dificilmente agora saberemos quem é fera mesmo, quem é só fogo de palha… o que se tem aprendido com o passar das gerações é que sobrevive bem pouca gente, e que nem sempre é quem está na boleia de sua geração (risos).
Como é seu processo de escrita?
É uma mistura de intuição com técnica aprendida ao longo de anos de leitura; de erros muitos e acertos poucos; de muito papel riscado (ainda hoje escrevo à mão as três primeiras versões dos contos), de cada ano floresce duas ou três historinhas em meu jardim de cactos, quando muito. Gosto de ficar matutando a narrativa um bom tempo antes de pô-la no papel, mas às vezes elas vêm de uma vez com uma força danada, como um transe espírita (o que sempre acho um mistério). Guardo por um bom tempo, releio, vejo se mantém ainda o fogo do início; penso em outras maneiras de contar a mesma história, faço variações, submeto aos amigos escritores, à minha companheira, também mostro para pessoas que não têm muita familiaridade com a literatura, pra sentir alguns aspectos de compreensão, de efeito das imagens. Porque o conto tem várias camadas, e alguns níveis de escrita nem todos vão perceber, mas acho que temos que fazer um bom balanceamento dessas camadas, para que não caiamos nem no conto raso, anedótico, típico, nem na mera masturbação estética, preciosa, vazia.
Quem são os escritores que mais te influenciaram?
Não dou conta de quantos, desde os livrinhos de caubói que lia na bodega de meu avô, que era viciado, fanático mesmo, passando pelos cordéis de feira (tão comuns em minha região), que passavam da voz dos cantadores para o papel ruim das tipografias, até os livros ditos literários mesmo. Sempre li de tudo, de literatura barata aos clássicos. Claro que com o tempo você vai se apegando a alguns autores, que foram vários em diversas épocas; teve o tempo do realismo mágico, li quase tudo de Jorge Luis Borges, Garcia Márquez, Vargas Lhosa, Júlio Cortázar, veio a época dos clássico nacionais, dos estrangeiros, me ficaram alguns autores de cabeceira, como Juan Rulfo, Graciliano, Moreira Campos, John Fante, Salinger, Dalton Trevisan, José J. Veiga e diversos outros que volto de vez em quando. Agora mesmo estou relendo todo o Tchekov que tenho guardado, e que prazer renovado, que força, que sensibilidade. Onde terá aprendido tanto da alma humana em tão pouco tempo de vida aquele discreto médico de província, de família miserável e atitudes discretas? Um mistério! Agora tento aprender mesmo é com o livrão do mundo, como bem disse Raduan Nassar em uma de suas raras entrevistas (Cadernos de Literatura, do Instituto Moreira Sales).
Que obra dita grandiosa você leu e achou ruim?
Diversas grandes obras da humanidade li sem nenhum prazer, mais por incapacidade minha, por pressa, por estar mais interessado em outras coisas; de alguns autores esperava muito e me decepcionei, muitos anos depois, por contingência de um relançamento ou outro qualquer, fui reler e adorei. Uma grande obra não é nunca ruim, outros é que são os nossos anseios, expectativas. A primeira vez que li os contos de Juan Carlos Onetti achei um “saco”, monótonos; eu ainda estava impregnado de García Márquez e seu turbilhão de imagens, não poderia gostar mesmo naquele momento, tempos depois me tornei fanático pela obra do uruguaio, que hoje tenho toda num lugar bem seguro da estante, sempre ao alcance da mão.
Leia mais sobre Pedro Salgueiro nos portais de literatura Cronópios (www.cronopios.com.br) e Jornal de Poesia (www.jornaldepoesia.com.br).
Entrevista em: http://www.atarde.com.br/revistamuito/?p=4881
Pedro Salgueiro (Tamboril, Ceará, 1964) é da geração que ficou conhecida como Geração 90, por conta da compilação homônima organizada por Nelson de Oliveira. Salgueiro tem editados os livros de contos O Peso do Morto (1997), O Espantalho (1996), Brincar Com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora, de crônicas. Vencedor do Concurso Guimarães Rosa, da Rádio France Internationale, e do Prêmio de Contos da Biblioteca Nacional/Instituto Nacional do Livro para obras em curso, dentre outros. Tem contos nas coletâneas Contos Cruéis, Geração 90: manuscritos de computador, Os Menores Contos Brasileiros do Século, Quartas Histórias e Todas as Guerras. Diz ele que, se essa tal Geração 90 tem algo em comum, é justamente a falta de um estilo ou temática em comum. De sua parte, prefere ambientar seus contos nas pequenas cidades.
É possível ensinar a escrever?
Ensinar a escrever, sim, claro, com técnica, boa gramática e um estudo apurado; agora, escrever com talento é bem mais difícil. Acredito muito que exista uma capacidade inata para apreender o mundo ao redor e transportá-lo para o papel em forma de arte; assim como acredito também que sem um esforço de elaboração, de suor, de tentativas várias, não se consiga desenvolver um texto de valor maior. Um jogador de futebol esforçado pode até ser mais eficiente que um craque relapso, mas um craque esforçado vale por mil apenas esforçados.
O que mais te atrai no conto?
O desafio de tentar dizer tudo o que se tem em mente com pouquíssimas palavras, de contar uma história ou sensação sem ter que matar (como bem dizia Clarice Lispector) com palavras as entrelinhas. Acho que o contista, por causa desse desafio, tende a ter uma técnica mais apurada, um senso de escolha mais contundente. Como escreveu o argentino Cortázar, o escritor de contos tem que ganhar a luta de boxe por nocaute (já o romancista pode muito bem se contentar em vencer por pontos), com um golpe certeiro.
Nunca tentou o romance, a poesia?
Como quase todo jovem comecei escrevendo poesia, uma poesia muito ruim, imitando a péssima poesia dos poetas marginais dos anos 1970. Com o tempo, e quase sem querer, fui, naturalmente, indo para a prosa curta. Não acredito que um autor escolha o gênero em que vai escrever melhor, acho que o gênero é quem escolhe o escritor. Tem pessoas que até pra dar um recado dão arrodeios, fazem associações em várias direções, traçam paralelos, acabam (se não tiverem muito talento) confundindo o interlocutor; estes serão os romancistas. Outros enfeitam tudo que falam, tem uma presença de espírito em dizer coisas banais; escreverão poesias com êxitos. Já o sujeito seco, lacônico, fatalmente se sentirão atraídos pelo conto. Na maioria das vezes em que escuto essa pergunta de quando irei escrever um romance, percebo um certo ranço de preconceito para com o contista (não é o seu caso, acredito), como se o romance fosse um passo além… Então, para desafiar o interlocutor, costumo afirmar que escreverei um romance quando não tiver mais capacidade de escrever um bom conto (claro que devolvo o mesmo preconceito, mas serve como vingança).
Minimalismo é escolha estética ou dogma?
É tendência inata, não escolhi escrever contos curtos com uma consciência teórica, sempre fui lacônico, calado, casmurro… Tudo o que é derramamento sempre me enfadou muito. Talvez por eu ser de uma região muito seca (o sertão dos Inhamuns, no Ceará) tenha adquirido uma secura interior inconsciente; na minha região as pessoas são lacônicas, falam as frases pela metade, nunca completam o raciocínio começado, têm medo de que a quentura seque a saliva de suas bocas. Claro que a escolha dos meus autores prediletos seria por esses parâmetros, da contenção, da secura; da tentativa de dizer o máximo com o mínimo de palavras. Sempre fui fanático por Machado de Assis, Juan Rulfo, Dalton Trevisan, Luis Vilela, Tchekov, Moreira Campos e outros mini(ani)malistas.
Qual o ponto em comum dos autores chamados Geração 90?
Apesar de ter participado da coletânea Geração 90: Manuscritos de Computador, organizada por Nélson de Oliveira, eu nunca consegui ver uma identidade comum entre os muitos autores, eu mesmo sempre me senti um peixe fora d’água dessa turma toda, pois ainda faço uns contos ambientados em cidades pequenas, quando a maioria é bem urbana… Talvez o que pareça mais comum nessa minha geração seja a falta de traços comuns entre seus membros (risos). Sinto-me mais próximo talvez (descontando o desnível, claro) de um José J. Veiga, de um Graciliano Ramos; também percebo alguns pontos de contatos dos meus pequenos contos com os que fazem hoje, por exemplo, Ronaldo Correia de Brito (também cearense) e o sergipano Antônio Carlos Viana.
O que foi marcante na literatura nos anos 00?
Acho muito cedo pra que se analise até mesmo a minha geração, que hoje é composta por tios grisalhos e barrigudinhos, quanto mais a essa safra maravilhosa de bons autores que pululam por aí em todos os estados; daqui a uns 20 anos talvez se vislumbre o pouco trigo perdido em meio a esse imenso matagal de joios. Mas nós precisaremos sempre de classificações, de amarras, de compartimentos estanques, de etiquetas… Muitas vezes um autor é bem mais próximo de outro que escreveu um século antes, outros estão completamente à frente de seu tempo (estes, muito poucos). Aqui mesmo no Ceará e outros estado do Nordeste vejo uma juventude muito afoita, muito aguerrida; mas dificilmente agora saberemos quem é fera mesmo, quem é só fogo de palha… o que se tem aprendido com o passar das gerações é que sobrevive bem pouca gente, e que nem sempre é quem está na boleia de sua geração (risos).
Como é seu processo de escrita?
É uma mistura de intuição com técnica aprendida ao longo de anos de leitura; de erros muitos e acertos poucos; de muito papel riscado (ainda hoje escrevo à mão as três primeiras versões dos contos), de cada ano floresce duas ou três historinhas em meu jardim de cactos, quando muito. Gosto de ficar matutando a narrativa um bom tempo antes de pô-la no papel, mas às vezes elas vêm de uma vez com uma força danada, como um transe espírita (o que sempre acho um mistério). Guardo por um bom tempo, releio, vejo se mantém ainda o fogo do início; penso em outras maneiras de contar a mesma história, faço variações, submeto aos amigos escritores, à minha companheira, também mostro para pessoas que não têm muita familiaridade com a literatura, pra sentir alguns aspectos de compreensão, de efeito das imagens. Porque o conto tem várias camadas, e alguns níveis de escrita nem todos vão perceber, mas acho que temos que fazer um bom balanceamento dessas camadas, para que não caiamos nem no conto raso, anedótico, típico, nem na mera masturbação estética, preciosa, vazia.
Quem são os escritores que mais te influenciaram?
Não dou conta de quantos, desde os livrinhos de caubói que lia na bodega de meu avô, que era viciado, fanático mesmo, passando pelos cordéis de feira (tão comuns em minha região), que passavam da voz dos cantadores para o papel ruim das tipografias, até os livros ditos literários mesmo. Sempre li de tudo, de literatura barata aos clássicos. Claro que com o tempo você vai se apegando a alguns autores, que foram vários em diversas épocas; teve o tempo do realismo mágico, li quase tudo de Jorge Luis Borges, Garcia Márquez, Vargas Lhosa, Júlio Cortázar, veio a época dos clássico nacionais, dos estrangeiros, me ficaram alguns autores de cabeceira, como Juan Rulfo, Graciliano, Moreira Campos, John Fante, Salinger, Dalton Trevisan, José J. Veiga e diversos outros que volto de vez em quando. Agora mesmo estou relendo todo o Tchekov que tenho guardado, e que prazer renovado, que força, que sensibilidade. Onde terá aprendido tanto da alma humana em tão pouco tempo de vida aquele discreto médico de província, de família miserável e atitudes discretas? Um mistério! Agora tento aprender mesmo é com o livrão do mundo, como bem disse Raduan Nassar em uma de suas raras entrevistas (Cadernos de Literatura, do Instituto Moreira Sales).
Que obra dita grandiosa você leu e achou ruim?
Diversas grandes obras da humanidade li sem nenhum prazer, mais por incapacidade minha, por pressa, por estar mais interessado em outras coisas; de alguns autores esperava muito e me decepcionei, muitos anos depois, por contingência de um relançamento ou outro qualquer, fui reler e adorei. Uma grande obra não é nunca ruim, outros é que são os nossos anseios, expectativas. A primeira vez que li os contos de Juan Carlos Onetti achei um “saco”, monótonos; eu ainda estava impregnado de García Márquez e seu turbilhão de imagens, não poderia gostar mesmo naquele momento, tempos depois me tornei fanático pela obra do uruguaio, que hoje tenho toda num lugar bem seguro da estante, sempre ao alcance da mão.
Leia mais sobre Pedro Salgueiro nos portais de literatura Cronópios (www.cronopios.com.br) e Jornal de Poesia (www.jornaldepoesia.com.br).
Entrevista em: http://www.atarde.com.br/revistamuito/?p=4881
segunda-feira, 9 de maio de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Querubim do Telhado da Conceição
Cissa de Oliveira
Tudo bem que os outros ainda o vejam como uma escultura, quando o veem, mas Querubim do Telhado da Conceição é muito mais do que isso.
Residente no alto da igreja matriz, em Campinas, ele sempre tivera planos para o futuro: ser um anjo de verdade. Um dia ele perderia o medo de voar, largaria aquela trombeta despertadora de fiéis à missa dominical e conheceria outros mundos. Por dentro do concreto é que ele ia alimentando o sonho, e tanto, que há tempos se sentia mais leve e até possuidor de um coração que palpitava.
Anjo temperamental e impaciente, numa tarde nublada ele passou, sorrateiro como uma sombra, do telhado da catedral diretamente para uma nuvem que lhe roçava os pés. Dali era voar ou cair! Era por volta de dezessete horas e vinte minutos, mas o céu encoberto impediria que alguém um pouco mais observador se assustasse com tamanho feito. Não fosse o improvável acontecer, somente o vento testemunharia fenomenal queda - ele pensou -, assim como os pombos que normalmente o tinham como cabide e faziam grande alvoroço. Mas passava pela praça uma poetisa que, intuindo “alguma coisa”, sacou o telefone celular. Com a câmera ela registrou o fato.
Ainda lá de cima, Querubim do Telhado da Conceição a viu; mas a poetisa apenas sorriu com jeito de quem lhe jogaria um beijo. Aquela naturalidade fez com que ele, em plena queda, perdesse o medo e se transformasse em anjo de verdade. E foi essa a primeira vez que, num movimento de asas, Querubim do Telhado da Conceição ganhou os céus.
Cissa de Oliveira
Tudo bem que os outros ainda o vejam como uma escultura, quando o veem, mas Querubim do Telhado da Conceição é muito mais do que isso.
Residente no alto da igreja matriz, em Campinas, ele sempre tivera planos para o futuro: ser um anjo de verdade. Um dia ele perderia o medo de voar, largaria aquela trombeta despertadora de fiéis à missa dominical e conheceria outros mundos. Por dentro do concreto é que ele ia alimentando o sonho, e tanto, que há tempos se sentia mais leve e até possuidor de um coração que palpitava.
Anjo temperamental e impaciente, numa tarde nublada ele passou, sorrateiro como uma sombra, do telhado da catedral diretamente para uma nuvem que lhe roçava os pés. Dali era voar ou cair! Era por volta de dezessete horas e vinte minutos, mas o céu encoberto impediria que alguém um pouco mais observador se assustasse com tamanho feito. Não fosse o improvável acontecer, somente o vento testemunharia fenomenal queda - ele pensou -, assim como os pombos que normalmente o tinham como cabide e faziam grande alvoroço. Mas passava pela praça uma poetisa que, intuindo “alguma coisa”, sacou o telefone celular. Com a câmera ela registrou o fato.
Ainda lá de cima, Querubim do Telhado da Conceição a viu; mas a poetisa apenas sorriu com jeito de quem lhe jogaria um beijo. Aquela naturalidade fez com que ele, em plena queda, perdesse o medo e se transformasse em anjo de verdade. E foi essa a primeira vez que, num movimento de asas, Querubim do Telhado da Conceição ganhou os céus.
Cissa de Oliveira
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